“HABEMUS PAPAM”

Eram 18H15, do dia 14 de Março, quando estas palavras, acrescidas com o fumo branco na chaminé do Vaticano, caíram no meu telemóvel. Assistia em Setúbal, na Igreja dos Grilos, a uma Eucaristia em memória dos meus familiares. No final, uma senhora junto ao altar confirmou a todos os presentes a notícia que já eu sabia.

Não esperava fumo branco tão cedo, esperava que se alargasse a decisão por mais alguns dias. Pela primeira vez, e para surpresa de muita gente, do conclave dos 115 cardeais, pelo menos 77 (não é segredo, é regra escrita) votaram num Papa Latino-Americano, o primeiro Papa Jesuíta, de nome Jorge Mário Bergoglio.

As minhas preferências iam para a eleição de um Papa não Europeu, com inclinações para os Estados Unidos ou Brasil. A Europa está a perder valores religiosos com o galopante capitalismo materialista. Em 1910 tinha 65% de católicos de todo o mundo e hoje apenas 24%. O Cristianismo Europeu resiste mal à secularização da sociedade e à crescente indiferença religiosa. Daqui a 20 anos, África tem mais católicos que a Europa e em 2030, três quartos dos Católicos estarão na América Latina, África e Ásia. Como diz Philip Jenkien, “ assistimos ao fim da época do cristianismo ocidental do sul do mundo.”

Fiquei surpreendido, mas ao mesmo tempo feliz, pela escolha deste Cardeal Argentino, que desconhecia. Com a sua eleição, consultei demoradamente a sua biografia e fiquei a saber que nasceu em 1936, oriundo de uma família de emigrantes italianos, mãe doméstica, pai ferroviário, numa família de quatro irmãos, sendo apenas uma irmã viva.

Aos 21 anos, depois de ter obtido o Curso Superior de Química, resolveu seguir a carreira eclesiástica, no Seminário de Villa Devoto, frequentando os estudos teológicos, na Companhia de Jesus. Estudou humanidades, filosofia, e lecionou Literatura e Psicologia. Em 1969 foi ordenado sacerdote.

Teve problemas de saúde, precisamente por causa do tabaco, e foi-lhe extraído um pulmão.

Entre 1973-1979 foi superior provincial dos Jesuítas na Argentina. Em 1992 foi consagrado Bispo, e em 1998 Arcebispo. Pela mão de João Paulo II foi nomeado Cardeal. Em seis anos, a sua carreira eclesiástica foi deveras ascendente.

Estou feliz e contente pela escolha não incidir num cardeal europeu, e fiquei mais feliz ainda porque tem o nome do meu filho Mário, e por ter escolhido o nome de Francisco I, pois também tenho um irmão com esse nome. De resto, este nome está carregado de simbolismo. Segundo o Papa, foi um sopro do Cardeal de S. Paulo, alertando-o para que se lembrasse dos pobres, inspirando-o para essa escolha. Assim, voltamos a nossa memória e estudo para figuras de santos que marcaram profundamente as suas épocas. Temos S. Francisco de Assis, que teve uma visão mística de Jesus Cristo, que Lhe disse para reconstruir a Sua Igreja. Também a sociedade europeia vivia uma profunda crise, como a que hoje se vive. Uma figura simples, pobre e amigo da natureza.

S. Francisco Xavier, o grande missionário do oriente, S. Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas e o nosso Beato Francisco Marto, esse pobre pastorinho das Aparições de Fátima, são outros Franciscos que fizeram História.

Trocando impressões com diversas pessoas e concretamente com um jovem com mestrado numa Universidade Estatal, sobre o que pensava do novo Papa, a resposta veio logo e fundamentada: “trata-se de um homem da rua, do povo e não é filho do Vaticano. É um cardeal que andava nos transportes públicos, não vivia em palácios episcopais, cozinhava as suas refeições, comunicava com as pessoas, deslocava-se à sua igreja local para fazer confissões, respondia a todas as cartas que lhe enviavam, vibrava com o tango argentino e com o futebol (é sócio do Clube Atlético San Lorenzo, fundado por um sacerdote), namorou com uma rapariga cujos pais não aceitaram esse convívio amoroso, impedindo um futuro casamento, e fumava com prazer. Esteve sempre de coração aberto, simpático e acolhedor para os mais desfavorecidos.” Com esta explicação, não tenho dúvidas que o nosso jovem licenciado, que não é praticante, estava bem informado sobre o novo Papa Francisco I.

Quando tomou posse de Cardeal, pediu àqueles que se queriam deslocar a Roma para não o fazerem, e assim darem esse dinheiro aos mais pobres. Nas solenidades da Semana Santa, na Catedral de Buenos Aires, limpou os pés a vários jovens seropositivos.

Também defende valores na defesa da vida e sobre os abortos e casamentos gay, diz que não devemos ser ingénuos, não se trata de uma política, mas sim de uma pretensão de luta destrutiva do Plano de Deus.

Numa aula de catequese da minha comunidade paroquial, perguntou-se a um grupo de adolescentes, qual a maior notícia da semana e todos foram unânimes: “foi a eleição do Papa, com o nome de Francisco”, e todos gostaram deste apelido. A seguir, foi-lhes perguntado o que mais lhes chamou a atenção do Papa Francisco I. Foram interessantes as respostas, um respondeu que foi uma frase que ouviu: “ quero uma Igreja pobre ao serviço dos pobres”; outra achou “ interessante ter tido uma namorada que, por sinal, se chamava Amália”; outro que era “simpático, comunicativo, próximo das pessoas e dava a boa noite a todos”; e uma outra catequisada destacou o Papa por “ter ido para o Seminário, já formado em Química”. O Catequista ficou satisfeito por ver que a sua turma não estava alheia a este tão importante acontecimento da nossa Igreja Católica.

Como adepto de futebol, aqui em igualdade com o Papa, recordo o seu conterrâneo Maradona quando marcou o golo da Argentina com a mão, à Inglaterra e assim foi campeão no México em 1986, afirmando que tinha sido “ a Mão de Deus”. Agora “ The New Hand Of GOD ou La otra MANO DE DIOS”, está no primeiro Papa Argentino.

Argentina tem agora cinco figuras universais: um Papa, Diego Maradona, Che Guevara, Jorge Luís Borges e Evita Peron. São cinco ícones que ficaram na História Universal.

 Francisco I deve olhar para uma Igreja missionária, evangelizadora, pobre, simples, comunicativa, caritativa; que abra as portas, sem medos das correntes de ar; que seja mais de inclusão que de condenação; que seja de mudança, contando com todos os cristãos conscientes e responsáveis.

Para já, este Papa é do meu inteiro agrado. Temos PAPA… Temos FRANCISCO I.

 

 

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Março/2013

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