Domingo da Transfiguração

Vivemos o segundo domingo da Quaresma, em ano da Fé. Na sua mensagem para a Quaresma, o Santo Padre convida-nos a subir ao monte para contemplar a beleza e o amor de Deus e depois descer para levar aos nossos irmãos o conforto do mesmo amor de Deus. Desta forma conjugamos a contemplação com a acção. Parece que o Papa estava a pensar na Palavra no quadro da transfiguração, como hoje nos é apresentado pela Palavra de Deus proclamada nesta assembleia do domingo. De facto, Jesus convidou três dos seus discípulos mais íntimos para subirem com ele ao monte e aí orarem. E, a seguir, é-nos dito como foi vivida a experiências deste momento de oração. Enquanto Jesus orava, o seu rosto transfigurou-se e as vestes ficaram resplandecentes de brancura. Neste quadro de contemplação, aparecem duas figuras a falar com Jesus, Moisés e Elias, também elas envolvidas em glória. E falavam sobre a morte que Ele ia consumar em Jerusalém. Pedro e os outros dois ficaram maravilhados e já queriam ficar ali para sempre. Por isso dizem a Jesus– façamos aqui três tendas, uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias. Não sabiam, porém, o que estavam a pedir, porque, como sempre acontece na oração, por si mesma relação contemplativa com Deus, o que necessariamente se segue é o serviço aos irmãos. Ouviram a voz vinda de Deus que dizia – “Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o”. E foi o que eles fizeram. Sem compreenderem por inteiro o que se estava a passar, desceram com o Mestre e continuaram a acompanhá-Lo na Missão que o Pai lhe confiara.

É assim que tem de ser também a nossa oração: encontro com Deus, para contemplarmos a verdade da sua beleza e o seu amor e depois percorrermos os caminhos da verdadeira comunhão em Cristo com os nossos irmãos.

É também nesta dinâmica da oração, que longe de afastar-nos das pessoas e do próprio mundo nos envias a elas com mais determinação e entusiasmo, que queremos viver a semana da caritas hoje mesmo iniciada e com este lema: “Fé comprometida para uma cidadania activa”. Foi o que o Papa nos disse na sua mensagem para esta quaresma ao falar-nos da Fé que para ser verdadeira necessariamente tem de desabrochar em obras de caridade.

A experiência do encontro com Deus e a sua contemplação é o ponto fundamental que dá valor e verdadeiro sentido à vida de todas e cada uma das pessoas. Mas nós constatamos diariamente, no nosso contacto com a realidade social, como são tantas as distracções que desviam a atenção das pessoas pra aspectos periféricos e secundários, fazendo esquecer o essencial. O Santo Padre Bento XVI, se outra outra importante herança não nos deixasse, deixava-nos esta: a sua preocupação constante por dizer para dentro e para fora da Igreja que afirmar Deus é afirmar e defender o autêntico valor das pessoas; negá-lo é negar esse mesmo valor e os seus direitos. Portanto para dignificar as pessoas e humanizar a sociedade a Deus tem de ser dado lugar explícito, tanto na vida pessoal como na vida social. Com isto não se pretende pôr em causa a justa autonomia das pessoas e da sociedade, como das leis internas ao próprio mundo. Pretende-se, isso sim, lembrar que Deus, longe de diminuir ou limitar a liberdade das pessoas e o percurso autónomo da vida colectiva, é referência fundamental e estruturante para que se possam atingir objectivos de bem e de dignificação para todos.

É por isso que o grande serviço que nós cristãos e Igreja somos chamados a prestar às pessoas em geral é ajudá-las a percorrer os caminhos de regresso a Deus. É isto mesmo que nos diz a carta do Papa sobre o ano da Fé, com as seguintes palavras: “A Igreja no seu conjunto e os pastores nela, como Cristo, devem pôr-se a caminho para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que dá a vida e a vida em plenitude.”

De facto, é num mundo assim, muito distraído e cada vez mais distante da realidade de Deus, um mundo quase exclusivamente preocupado com as coisas passageiras e esquecido dos bens que permanecem para a eternidade que nós somos chamados a viver e testemunhar a nossa Fé.

S. Paulo hoje alerta-nos para a necessidade de escolhermos entre duas atitudes perante a vida. Uma delas caracteriza-se por marginalizar a Fé e é própria daqueles que, como ele diz, “têm por Deus o ventre, orgulham-se da sua vergonha e só apreciam as coisas terrenas”. Nós fazemos outra escolha, porque não vivemos para comer, mas comemos para viver. Temos consciência do mal que praticamos, mas não nos orgulhamos dele, nem lhe queremos dar estatuto de igualdade perante o bem e honestidade. Como discípulos de Cristo queremos viver do horizonte da eternidade e dizer com S. Paulo – a nossa Pátria é o Céu de onde esperamos o próprio Cristo que nos há-de transformar á medida do seu corpo glorioso.

Estamos no ano da Fé e para nos ajudar a vivê-lo intensamente o próprio Santo Padre lembra-nos um importante instrumento que é o Catecismo da Igreja Católica. Ele pretende ajudar-nos a progredir na Fé professada, com a recitação do credo, sobretudo ao domingo; na Fé celebrada, sobretudo na Eucaristia e nos outros sacramentos; na Fé vivida em fidelidade á mensagem evangélica e na Fé rezada, segundo o modelo do Pai Nosso, que recitamos frequentemente.

São estes as quatro grandes partes do Catecismo que desejamos aproveitar como instrumento de primeira importância para progredirmos na verdadeira Fé.

24.02.2013

+Manuel R. Felício, Bispo da Guarda

Comentários

Comentários