II – Domingo da Páscoa
“Vimos o Senhor”

Na manhã daquele primeiro dia da semana, Pedro e João, alertados por Maria Madalena, vão ao sepulcro, verificam que está vazio e acreditam que Jesus ressuscitou dos mortos. Considerando todas as hipóteses, intuem que a ressurreição é a que melhor explica a ausência do corpo do Senhor, pois corresponde perfeitamente ao que Ele lhes tinha dito e ao que previamente a Escritura tinha anunciado.
Este é o primeiro sinal, um sinal importantíssimo, mas não é a única prova que Jesus deixou. Ele não quis, não podia querer, que a fé dos apóstolos e de toda a Igreja na sua ressurreição se fundamentasse apenas no sepulcro vazio. Por isso mesmo, “na tarde daquele dia”, Jesus visita os discípulos, apresenta-se no meio deles, lá na casa onde eles se encontravam. Jesus quer que os apóstolos O vejam, ouçam e toquem, que O sintam presente e convivam com Ele.
Nesta sua primeira aparição, Jesus, depois de os saudar na forma que é habitual entre os judeus, faz questão de lhes mostrar as mãos e o lado. É necessário sublinhar esta prioridade e primazia que Jesus dá aos sinais da paixão. Quer que vejam que é Ele mesmo, Aquele que esteve crucificado e morreu na cruz, e não um fantasma. Quer que compreendam que a paixão e ressurreição são duas realidades inseparáveis da sua vida e missão. Jesus chega à ressurreição através do caminho da cruz. E isso nunca deve ser esquecido. Aquelas marcas, que a ressurreição não faz desaparecer do corpo de Jesus, evidenciam e estão a lembrar a oferta que Ele fez da sua vida, aquela prova maior do amor, aquele amor de Deus que perdoa os pecados, que redime e salva o homem.
Chama a nossa atenção, e deve ser também sublinhado, que a prioridade da missão que Jesus confia aos apóstolos, no contexto da primeira aparição, é precisamente a do perdão dos pecados. Jesus envia-os, inserindo-os na missão que o Pai Lhe confiou, e comunica-lhes o Espírito Santo, para que possam perdoar os pecados dos homens. Jesus quer que, através deles, chegue ao coração do pecador arrependido o amor misericordioso de Deus.
“Vimos o Senhor”. Antes, os acontecimentos da paixão devem ter suscitado muitas dúvidas, desalento e tristeza no espírito dos apóstolos. Por momentos, devem ter-se sentido defraudados e enganados. Porventura chegaram a pôr a hipótese de regressarem às suas terras e retomarem as suas anteriores ocupações. Agora, “ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor”. O Senhor está com eles, não há lugar para qualquer dúvida, venceu a morte, ressuscitou. Por conseguinte, renascem neles os sonhos e a esperança.
Viram o Senhor, saboreiam a alegria do encontro e, de imediato, sentem-se impelidos a partilhar a sua experiência, ou seja, a anunciar aos outros a Boa Nova da ressurreição. Este acontecimento, pelas implicações que tem para a humanidade inteira, não se pode guardar como um segredo. Seria um imperdoável acto de egoísmo. O primeiro destinatário deste anúncio é Tomé, que não estava presente quando lhes apareceu Jesus. Tomé não fica muito entusiasmado com a novidade. Pelo contrário, quer ver e tocar, exige provas inquestionáveis, antes de acreditar. Hoje não vamos deter-nos na incredulidade de Tomé, no que ela significa e naqueles que ele representa. Vamos concentrar a nossa atenção na lógica que se segue:
Em primeiro lugar, temos os apóstolos que vêem, acreditam e anunciam/testemunham: “vimos o Senhor”. Depois, temos Tomé que não vê e não acredita. No entanto, segundo a censura que Jesus lhe dirige, ele devia ter acreditado a partir do testemunho dos outros apóstolos. A alegria, o entusiasmo e a convicção com que lhe falaram deveria ter sido suficiente para acreditar que Jesus tinha ressuscitado. Em terceiro lugar, temos o elogio que Jesus faz àqueles que acreditam sem terem visto. Estes elementos mostram claramente que não será através de aparições de Jesus, mas sim do testemunho dos que viram, isto é, acreditam que a Boa Nova da ressurreição chegará, no decorrer da história, ao conhecimento dos homens. Sim, é através da vida/testemunho dos seus discípulos/cristãos que Jesus quer mostrar às pessoas que está vivo, venceu a morte, ressuscitou.
“Vimos o Senhor”. Será que tu podes dizer, e os outros poderão perceber que dizes a verdade, que já O vistes e acreditas n’Ele? Poderão ver em ti as marcas das mãos e do lado, isto é, os sinais daquele amor de quem é capaz de renunciar a si mesmo e tomar a sua cruz todos os dias, capaz de se dar sem medida e perdoar sempre?

pe. José Manuel Martins de Almeida

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