II – Domingo da Quaresma

“Subiu ao monte, para orar”

 

            Na nossa caminhada para a Páscoa, a liturgia convida-nos, neste segundo domingo da Quaresma, a escutar e meditar o relato da Transfiguração, e, através dele, Deus exorta-nos, como fez com Pedro Tiago e João, a escutar o seu Filho, sobretudo a penetrar no mistério da sua morte e ressurreição, fundamento último da nossa fé.

            A Transfiguração, precedida por um anúncio da paixão (Lc 9,22) e sendo como que a antecipação e antevisão da glorificação de Jesus, mostra que a morte e a ressurreição constituem o ponto central da sua missão e que os apóstolos devem estar preparados para viver este mistério.

            No contexto da Transfiguração, aparecem Moisés e Elias, os principais representantes do Antigo Testamento, que dialogam com Jesus sobre a sua morte “que ia consumar-se em Jerusalém”. A conversa centra-se no mistério pascal de Jesus. Este é um tema já abordado “na Lei de Moisés, nos profetas e os Salmos” (Lc 24,44). Por conseguinte, Moisés e Elias estão à altura de compreender e ajudar a compreender que a morte de Jesus é afinal o cumprimento necessário da Escritura, isto é, entra no plano de salvação da humanidade.

            Aquele foi para os três apóstolos um dia de experiências inesperadas e intensas. Primeiro, foram surpreendidos com “a glória de Jesus”. Depois, com a manifestação de Deus. Deus faz ouvir a sua voz para lhes revelar quem é realmente Jesus e para lhes ordenar que O escutem. Precisamente porque é Filho de Deus, os apóstolos devem escutá-l’O, tomar a sério a sua palavra, acreditar n’Ele, também quando lhes voltar a falar da sua morte e ressurreição ou lhes fizer propostas difíceis de entender e realizar. Naquele momento, escutá-l’O implica descer com Ele do monte e voltar para o quotidiano da vida dos homens, lá onde Jesus deve continuar a sua missão. Escutar Jesus, muito para além de apreender os seus ensinamentos, significa segui-l’O até ao fim, tomando também eles a cruz de cada dia.

            “Subiu ao monte, para orar”. O que leva Jesus a subir ao monte, naquele dia, é a necessidade e o desejo de rezar. Lucas é o único evangelista a dar-nos esta informação. Além disso, regista que “enquanto orava, alterou-se o aspecto do seu rosto”, dando a entender que a Transfiguração de Jesus é indissociável da oração, aparece como consequência da mesma. A oração de Jesus, o encontro íntimo e prolongado com o Pai, o diálogo e interacção com Ele, toda essa intensa vivência interior de comunhão acaba por se manifestar exteriormente. A luz de Deus resplandece no rosto de Jesus e reflecte-se até nas suas próprias vestes. A sua humanidade mortal adquire, por alguns momentos, os dotes e a luz da imortalidade.

            A teofania de Deus também se enquadra no âmbito da oração de Jesus. Já no contexto do Baptismo, a manifestação de Deus acontece enquanto Jesus rezava (Lc 3,21-22). A oração filial de Jesus motiva Deus, nestas duas circunstâncias, a intervir para proclamar a sua paternidade e conferir toda a autoridade e credibilidade a Jesus e à sua missão junto dos homens.

            “Subiu ao monte, para orar”. Estamos nós dispostos a subir ao monte da oração, a olhar para o alto (1ª leitura), para as realidades espirituais, a contemplar a pátria que está nos Céus (2ª leitura), a vida eterna? E do alto do monte, estamos dispostos a olhar, à luz da fé, o mundo, de modo a captar e perscrutar nele a beleza, a bondade e a voz de Deus? Subimos ao monte não só porque sentimos necessidade de contemplar os bens do Céu, mas também para conseguirmos contemplar Deus nas coisas da terra! Não podemos reduzir Deus às coisas do mundo, mas não precisamos de sair do mundo para encontrar Deus!

            E que oração fazemos nós? A oração feita de palavras que apenas saem da boca, que é repetição rotineira de “orações” ou mera enumeração de pedidos e exigências? A nossa oração é encontro e proximidade com Deus, escuta atenta e resposta confiante, abertura da nossa mente e do nosso coração à sua verdade e ao seu amor, procura da sua vontade e adesão à sua proposta de vida? Deixa marcas em nós e torna Deus visível na nossa vida? Caso contrário, se não nos transforma, ainda que participemos muitas vezes na Eucaristia, rezemos muitos terços, façamos muitas outras orações, passemos muito tempo nas igrejas, tudo isso não é, não pode ser considerado oração.

Pe. José Manuel Martins de Ameida

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