IN MEMORIAM – MANUEL BARROCA

Há pessoas nas nossas comunidades que caíram no esquecimento quase total.

O nosso Homem nasceu em São Martinho, freguesia da Barroca, bem dentro deste Portugal Interior, oriundo de uma família de sete irmãos, sendo o Manel o mais velho.

A Mãe – Maria Bárbara Barroca – era doméstica e, com este rancho de filhos, trabalhava quase vinte e quatro horas por dia.

O Pai – Antero Pires Martins- era motorista da Firma de Transportes do Zêzere e conseguiu mais tarde, com sacrifício e trabalho, frequentar e tirar o Curso de Contabilidade. Deixou as “carreiras” e foi para Guarda-Livros da mesma empresa.

Atendendo à sua profissão de motorista de passageiros, andou muitos anos com a casa às costas. Pareciam donos de um Circo Ambulante, uns andarilhos de circunstâncias, Malpica do Tejo, Três Povos, S. Miguel de Acha e, finalmente, Fundão.

O Manuel, de estatura meã e fisionomia oriental, era carinhosamente conhecido por quase todos como “O Manuel Chinuá”. Tinha um jeito natural para tocar guitarra ou viola e para cantar de improviso quadras populares, muitas delas acutilantes, de deixar arder as orelhas de quem as ouvia.

Dizem-me que ainda criança, em São Martinho, aos ombros dos homens grandes, já cantava canções, quadras malandrecas vernáculas que os mais velhos lhe ensinavam, as quais levavam ao delírio os tocadores de velhas concertinas e de outros instrumentos populares ancestrais.

Com tantas paisagens musicais na Beira Baixa, e com tantas passagens por territórios de bombos, concertinas e adufes, o Manel enriqueceu o seu património musical. Com inteira generosidade, executava-o e transmitia-o a todos, principalmente à família e amigos.

Frequentou o Liceu Nacional de Castelo Branco e, jovem estudante, já colaborava com poemas para os “Livros de Despedidas de Cursos”.

Em Castelo Branco obteve o 7º Ano, o 3º Ciclo Complementar dos Liceus, que dava acesso à Faculdade, ao Ensino Superior, com excelentes notas, principalmente em Matemática, Português e Latim.

Colaborou assiduamente no Jornal “Caça e Pesca”, no vespertino “Diário de Lisboa” e no Programa “Música na Estrada” da Emissora Nacional, ganhando dois prémios nos concursos de Prevenção Rodoviária.

Em 1968 e 1972 venceu o Concurso das Marchas dos Santos Populares no Fundão e um concurso de Poesia do Jornal “O Vitória”, órgão oficial do Vitória de Setúbal.

Foi o autor da letra e música do Final do Curso dos Professores de corte e costura da Oliva, e mais tarde foi também encenador de uma peça de Teatro na Enxabarda (Fundão).

Por motivos de saúde e familiares, foi dispensado do serviço militar obrigatório. Liberto destes compromissos, depressa se empregou na Repartição das Finanças do Fundão, a funcionar no edifício da Câmara Municipal.

Com melhores condições salariais (mais tarde veio a arrepender-se), mudou-se para o sector bancário, na Agência do BPSM do Fundão. Muitas vezes, dada a sua popularidade e generosidade, percorreu as aldeias, as quintas e as anexas do concelho do Fundão, na recolha de dinheiros da emigração, como companhia a sua guitarra.

Nestas andanças, um emigrante passou-lhe um cheque sem cobertura a troco de dinheiro do banco e o nosso Homem foi alvo de um processo disciplinar, que culminou no seu despedimento. Como todo o lazarento que cai no chão todos lhe batem e ninguém lhe dá perdão, Manuel Barroca viu-se sem quase nada nem ninguém. Valeu-lhe uma ajuda monetária da irmã mais nova, emigrante na Alemanha, e assim conseguiu emigrar para São Paulo no Brasil, onde viria a trabalhar.

Em 1979, na Metrópole Paulista, escreveu o livro “Saudade – Silêncio e Sombra”, edição da Empresa Luso-Brasileira de Jornalismo, e ainda iniciou a preparação de um segundo livro chamado “Aldeia e Cidade”.

Fenando Ançã, no prefácio, escreveu que “Manuel Barroca é um Português tipicamente beirão, sempre bem-humorado, sincero, amigo da família e dos amigos.”

Manuel Barroca dedicou este livro de poemas à esposa, que “mostrou nas horas piores os sentimentos maiores.”

No primeiro capítulo, “SAUDADE”, escreveu: “para que serve o luar/em noites de lua cheia/se não ouço o teu cantar/nos serões da minha aldeia…”. Termina com um poema dedicado ao filho e à filha.

No segundo capítulo, “SILÊNCIO”, lemos: “Eu quero os lírios do monte/o prazer da sua cor/ Quero a frescura da fonte e as cerejas em flor…”

No último capítulo, “SOMBRA”: “Acordei de manhã, sobressaltado/com ruídos de gentes faladoras. /Notei que algo havia mudado/ só ouvidos escutando emissoras…”.

Regressou a Portugal e foi trabalhar como Contabilista para uma grande empresa de iogurtes, uma das primeiras a ser instalada na Zona Industrial de Castelo Branco. Angariou a estima de todos com a sua competência profissional, participando activamente nas festas da empresa, para encanto das crianças e dos seus pais. Nalgumas Voltas a Portugal em Bicicleta também foi o responsável publicitário desta empresa de Iogurtes de Castelo Branco.

Nas horas vagas criou um Grupo de Fadistas Albicastrenses em que actuava. Há quem se lembre do dia em que relatou em verso, para uma estação local, um jogo de futebol realizado no Vale do Romeiro onde jogava o Benfica de Castelo Branco.

Amigo Manel, partiste cedo demais, 60 anos… Hoje vim visitar-te ao cemitério com os versos que a tua Mãe te dedicou: “Filho, tanto tocaste e cantaste/E davam-te tanto valor/Agora canta no Céu/Perante Deus, Nosso Senhor.”

O Grupo de Guitarristas de Castelo Branco acompanhou-te até aqui – Cemitério Municipal do Fundão – , deixou-te uma guitarra como lápide e a inscrição: “Homenagem ao Manuel Barroca – Não te esquecemos/Respeitam-te e recordam-te com eterna saudade.”

A tua esposa Carminda, no teu primeiro aniversário em 16/5/2003, escreveu no “Jornal do Fundão”: “Passou um ano de saudade/Deixaste-nos um vazio, tanta dor/Que Deus tenha por nós Piedade/Para continuarmos sem ti AMOR.”

Manel, lembras-te quando organizámos uma serenata para os nossos amigos,  tu com capa de estudante, eu com farda de escuteiro? Onde quer que estejas, sei que haverá música… um Homem que tem música dentro nunca desaparecerá.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Setembro/2018

IN MEMORIAM

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