“MOMENTOS DE FÉRIAS”: 1ª PARTE

 

São Pedro ainda não abriu a porta ao nosso Homem. A caminhada terrena continua, com menos forças mas sempre em frente. Descuidada a reforma agrária, o seu principal ofício consiste agora em ler os jornais diários, ou pior, sujar os dedos na triste realidade lusitana. Neste país ardido até os jornais chamuscam as mãos.  

Num recente estudo da União Europeia, Portugal lidera o pelotão da frente dos países mais envelhecidos, onde também já sou ciclista a queimar as últimas etapas, em final de carreira, depois de vencer montanhas e um ou outro sprint da vida. Haverá no futuro pilim para pagar as reformas e promover a natalidade? Perguntem aos homens do poder que laureiam a pevide nas passadeiras vermelhas, prometendo mundos e fundos em época eleitoral.

Um candidato visionário do PS, vendo este país de velhos com os pés para a cova, tem como slogan de campanha: “Campas a metade do preço”. Assim, caro leitor, se quer morrer barato, mude-se para essa freguesia onde a Morte está em saldos. Os tempos são de humor negro (a condizer com a nacional pretidão) e até existe um candidato de nome João Queimado que promete dar a vida pela freguesia da Chamusca. De resto, um pouco por todo o lado as oposições gostam mais de pegar no lança-chamas do que nas mangueiras. Para a direita a culpa é da esquerda, para a esquerda a culpa é da direita. Enquanto as claques se digladiam, o país arde.  

O nosso Homem recebe um livro devolvido com uma linda mensagem, escrita numa cuidada caligrafia de máquina: “És a vergonha da nossa terra”. O edil – autor da missiva, que preza o anonimato dos cobardes, é um desses vira casacas do pós-25 de Abril, um socialista de aparência com a espinha salazarista intacta, para quem a liberdade de expressão é um grave delito. Assim proíbe lançamentos de livros que incomodam a sua governação (histórica apenas na duração) nos poucos tempos livres que lhe sobram entre o trabalho da Junta, a administração de um Lar, a chefia de redacção de um Jornal Local e a entrega à segurança do Posto da Guarda Nacional Republicana. Por aquilo que sei, este edil que goza de um poder de origem divina no alto da sua oliveira mal podada, deve ter escrito a mensagem ao espelho, uma técnica antiga para quem tem problemas de consciência.    

O nosso Homem entra numa Biblioteca com fome de jornais diários. Uma menina, responsável pelo sector, diz-lhe que não há.

– Ó menina, onde já se viu uma Biblioteca sem jornais diários?

– Pois, também acho estranho, nunca ninguém me explicou.

– Bom, como vejo tantos livros nesta Biblioteca, será que tem o Livro de Reclamações, ou também está esgotado ou fora de stock?

– Esse livro temos.

– Então quero requisitá-lo imediatamente.

O nosso Homem assinalou no Livro de Reclamações a ausência de jornais com o seguinte recado: “Se não querem os cidadãos informados, não disponibilizando nesta Biblioteca Pública jornais diários, destaquem pelo menos o Livro de Reclamações na montra das novidades, um livro indispensável para o exercício da cidadania”.

Num restaurante, na Rua dos Correeiros em Lisboa, um empregado de mesa, avistando turistas ao fundo da rua, actualiza o IVA no preçário do almoço. Na esquina, dois carteiristas aguardam que os turistas comam e deixem uma generosa gorjeta na mesa para a surripiarem antes que o empregado de mesa se aperceba. Em boa verdade, a gorjeta de um alemão chega e sobra para os dois carteiristas almoçarem bem em qualquer tasca da capital. No roubar é que está o ganho. Diz o povo que “ladrão que rouba ladrão tem mil anos de perdão” e neste ciclo criminoso até parece haver alguma justiça: o alemão rouba o português, o empregado de mesa português rouba o alemão, o carteirista rouba o empregado de mesa e o alemão.

Na televisão já rola a bola e a cabeça de um vídeo-árbitro, mais um motivo de indignação. Um idoso aproxima-se:

– Amigo, sabe qual é a diferença agora? Antes chamávamos gatuno ao árbitro e aos fiscais de linha, agora chamamos gatuno ao árbitro, aos fiscais de linha e ao vídeo-árbitro.  

O nosso Homem dirige-se a uma Igreja de Setúbal para assistir à Eucaristia Dominical. Os fiéis são maioritariamente idosos. O Coro está afinado, mas as verdades do Evangelho pela boca do Celebrante são cortadas pelo som das ventoinhas. Só ouve que uma jovem possuída pelo Demónio foi libertada por Jesus Cristo. Para bem dos presentes, a homilia é proferida a grande velocidade. Lá fora, uma loja chinesa lança uma promoção: “Nossa Senhora de Fátima com 50% de desconto”.   

O nosso Homem parte para Tróia. Antigamente era a praia do Povo, as famílias levavam o farnel e partilhavam os alimentos. Hoje o egoísmo é rei e predador, uma refeição custa no mínimo 50 euros e só se vê gente podre de rica. O nosso Homem afasta-se logo.

À noite recebe uma amiga que traz notícias da Gardunha:

– Quando lá voltar não vai reconhecer nada. A Gardunha foi pintada de alcatrão queimado. Já não há árvores…

– Olhe, pelo menos assim não caem como na Madeira.

Sorriem da ironia negra e choram pela Gardunha que tanto amam e desejam que renasça das cinzas.     

 

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Agosto/2017

António Alves Fernandes

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