NEGRUME EM LISBOA

Estamos nos finais de Abril do corrente ano, com a natureza a desabrochar e a despertar as cerejeiras em flor no Fundão. Porém, o nosso Homem continua a sua via crucis na antiga capital do império, devido ao poder de improviso de uma maldita doença. Vê-se numa unidade militar a respirar um perfume de algas e só os médicos e enfermeiros sabem que mais.  

Nunca pensou, volvidos mais de 50 anos, que voltaria aos espaços militares, aos hábitos de quartel e recordasse tanto o Curso de Oficiais Milicianos, fardamento, formatura, máscara de combate. Os doentes são soldados na recruta pela vida, os médicos generais (embora muito mais simpáticos), os enfermeiros pau para toda a obra, os técnicos engenheiros de grande atendimento e eficácia.

Durante a “oxigenoterapia hiperbárica”, o pensamento do nosso soldado viaja para a sua Terra, lembra a infância na Bismula, a adiada Reforma Agrária na Aldeia de Joanes, o ar puro da Serra da Gardunha, os irmãos no Rio Sado.

Abre o jornal para aliviar o aborrecimento de mais um dia, lê o homicídio de um sportinguista nas imediações da Luz, desavenças, atritos, ofensas, processos, tribunais. Os petardos e fumaças do futebol conduzem-no a um estado de sonolência. A doença, ainda que não o tenha domesticado, tornou-o mais calmo e receptivo aos prazeres do sono.  

O nosso viajante acorda e ocorre-lhe visitar umas pessoas amigas que há muito não via. Lá se faz ao caminho, sustentado pela companheira canadiana. Chega à porta da rua, onde é recebido por uma porteira com grande espírito de curiosidade. Tantas são as perguntas que o nosso Homem julga ter batido à porta da Judiciária. Dirige-se ao primeiro andar e toca a campainha. Surge-lhe uma senhora desconhecida, bonita, falando um brasileiro doce como o mel:

– Oi, aqui mora o patrãozinho, você tem de esperar a sua vez.

O nosso Homem tranquiliza-a:

– Menina, não tenha pressa, apenas procuro umas pessoas amigas, vou subir até ao segundo andar.

Aí chegado, é recebido por um apresentável cavalheiro que só peca no mau feitio:

– O que anda para aqui a fazer o senhor de bengala e todo torcido? Não dou dinheiro a pedintes. Saia imediatamente antes que o empurre.

– Só queria vender-lhe um pouco de educação.  

– Não aceito nada de estranhos, muito menos de doentes.

O Cavaleiro da Ordem Cívica fecha violentamente a porta. O nosso Homem desce silenciosamente as escadas.  

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Maio/2017

 

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