Neste Natal…

Neste Natal, o Papa Francisco publica a Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho), um guião para a ação da Igreja de Cristo, constituída por pessoas com espírito missionário. Um projeto para uma nova etapa de evangelização, com 288 pontos divididos em cinco capítulos. Para a mundialmente conhecida Revista Time, foi escolhida a Figura do Ano.

Neste Natal, entro num café praticamente cheio, faço a saudação de “boa tarde” com voz firme e só um amigo pessoal responde. Será que não respondem com receio de pagar um imposto decretado por algum rei herodes?

 Neste Natal, vejo a sociedade portuguesa medrosa até aos ossos. O pensamento de Agostinho da Silva, Eduardo Lourenço, Natália Correia ou Padre António Vieira nunca foi tão atual e Neste Natal, um Bispo aconselha o diácono a ter uma postura de “escuta permanente”. 

Exemplar mensagem para todos colocarem em prática.

Neste Natal, a palavra do ano chama-se CRISE: invadiu a sociedade em todos os setores, feriu valores como a verdade, a liberdade, a justiça e a democracia. Os seus capangas são a Austeridade, o Medo, o Desemprego, a Dívida, a Ameaça, a Retórica do Crescimento Sustentável (sustentável para alguns, claro). Cresce o número dos milionários e dos POBRES. 

Neste Natal, assisto a um programa da TV onde um técnico de informática, com bom vencimento, diz que se sente revoltado por ter junto de si, trabalhadores especializados com salários mensais de quinhentos euros, sujeitos a descontos. Isto é revoltante e lá diz o ditado: “a violência combate-se com violência”. 

Neste Natal, num auditório do Porto, concretiza-se um programa de apoio aos sem-abrigo. Alguns já dispõem de abrigo, mas durante meses só têm uma refeição diária, normalmente uma sopa. Um homem diz: “ sem pão, sem trabalho, não há dignidade possível“.

Neste Natal, chegam da longínqua troika três reis magos, que nos vêm delapidar o ouro, o incenso e a mirra, deixando no burgo uma pobre e envelhecida ovelha, na companhia de uma vaca seca de leite e de burros lazarentos.

 Neste Natal, tomo conhecimento que um dirigente de um grande clube português tanto vai a Fátima como às bruxas. É o que acontece a muitos católicos portugueses, que fazem uma caldeirada de opções e escolhas.

 Neste Natal, assisto à leitura do acórdão da sentença de um presbítero acusado de pedofilia, condenado à prisão em primeira instância judicial. Julgou-se um individuo, nunca uma instituição mundial, a que pertenço.

Neste Natal, vim a saber que somos o segundo País Europeu a ter a energia e o gás mais caro, com salários e reformas de miséria para a maioria dos portugueses.

Neste Natal, tenho saudades do Natal da minha aldeia arraiana- Bismula (Sabugal), onde à lareira fumegava uma panela de ferro, e de lá saíam as couves com bacalhau. Os meus saudosos Pais entoavam felizes canções natalícias, enquanto os filhos iam ao sapatinho recolher figos secos, nozes, doces e maças camoesas, que o Menino Jesus nessa altura não  entrava em Centros Comerciais.

 Neste Natal, um pároco escritor fala na necessidade da Igreja se abrir às artes, preferindo uma palavra que “morda” a uma “mão invisível”. A dentada de uma palavra é capaz de conduzir mais ao divino do que os discursos mornos e beatíficos para adormecer.

Neste Natal, o luto chegou a muitas famílias portuguesas, recordo os jovens universitários e pescadores arrastados para a morte, por uma onda “cavaleira”, um octogenário pescador daquela zona é preciso estar prevenido e atento às dores do mar e respeitá-las.

Neste Natal, desejo a todos os meus amigos leitores, os que analisam e os que sentem, os que criticam e os que elogiam, os que ignoram e assobiam para o lado, a todos sem exceção, um Santo Natal e Festas Felizes com saúde, paz, amor e alguns trocos.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Natal/2013

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