O AMOLADOR

O Amolador é uma profissão em vias de extinção, como tantas outras, uma evidência que nos vai marcando neste mundo em mudança, não sabemos se para o bem ou para o mal.

Conheci um há dias, fazendo-se acompanhar de uma bicicleta, encimada por uma roda giratória feita de pedra de Esmoriz, que percorre aldeias, vilas e até algumas cidades.

Recordo-me que observei um em Lisboa, na zona do Rato, ficando com a sensação de que seria o último. Porém, para meu espanto, alguns dias passados encontrei um outro amolador na cidade de Fundão.

O som característico para o chamamento de clientes, através de uma espécie de gaita que oscila como a roda, despertou-me a atenção e fez-me ir até à janela de um sexto andar. Lá no fundo avistei o nosso Homem tocando e olhando para janelas e portas, lembrando a todos de que tem de ganhar para comer.

Quis ir logo conhecê-lo. Estes artesãos transportam-me ao passado e sinto uma grande nostalgia, agora que são “raros”. E nada melhor para o êxito desta diligência do que levar umas facas de cozinha para afiar.

No desempenho desta profissão, o nosso Amolador, António Joaquim Magalhães, natural de Montemor-o-Novo, no coração do Alentejo, passa muitos meses longe do convívio familiar, percorrendo quase todo o território nacional.

Não é muito dado a falas, ou conversas, a sua atenção concentra-se numa roda giratória encavalitada numa simples bicicleta.

Naqueles momentos advinham-se muitas memórias, pensamentos longínquos e ricos de experiência de uma arte difícil e pouco remunerada. No meio de um passeio, onde se cruzam muitas gentes, principalmente jovens estudantes a caminho das escolas, alguns, ou talvez muitos, abrandam o passo mostrando o espanto por verem aquela geringonça a funcionar, e observam a arte de um amolador, profissão que jamais escolheriam porque nem imaginavam que existisse. Hoje todos querem ser engenheiros, arquitectos, médicos, doutores, economistas, agarrados a instrumentos das novas tecnologias e mascarados com fatos amarrados a uma gravata. Este suja as mãos ou, como diz o povo, “mete as mãos na massa”.

Vou insistindo, pela força da minha curiosidade, para saber um pouco deste Homem. A muito custo lá abre o cofre da sua clausura e lá vai dizendo que tem dois filhos. O mais velho, inicialmente até queria aprender a arte do pai, mas depressa verificou que não tinha vontade para ser andarilho do tempo, para um caminhar errante.

O Amolador franze a testa e desabafa, dizendo-me que herdou esta profissão do seu avô e do seu pai, sendo por isso uma tradição na sua família. Vive-a com muito amor e paixão e, se não fossem estes dois sentimentos, também já teria arrumado as ferramentas. Este trabalho por enquanto vai dando para sobreviver, como acontece com o pequeno comércio e alguma agricultura familiar, ou de subsistência.

Neste mundo que dizem “em progresso” ainda não entraram alternativas tecnológicas que substituam as mãos destes Homens.

Foi adquirindo ao longo dos anos alguns clientes fiéis, mas infelizmente cada vez menos. Porém, não deixa de sentir algum alento pelos que ainda aguardam a sua visita, para afiar os utensílios domésticos, ou reparar algum chapéu-de-chuva ou sombrinha de senhora, objectos aos quais tem grande estima, sendo alguns autênticas raridades, herdados de antepassados.

O frio e a chuva das ruas por onde trabalha, e a transumância, são na realidade os seus maiores inimigos. Felizmente que na sua profissão não há calotes. O utensílio afiado, ou reparado, só é entregue com o pagamento em numerário.

Enquanto vai falando, continua sempre com olhar fixo nas danças da roda de Esmoriz, para evitar acidentes e sofrer ferimentos que o podem impedir de continuar a sua nobre arte.

Despeço-me no Largo, junto à Tasca do Quim, de onde sai uma onda de cheiros a petiscos, perto da Biblioteca Eugénio de Andrade.

O poeta, se ali estivesse naquele momento, certamente escreveria um poema a este Homem, um último AMOLADOR de passagem pelo Fundão.

Se um cronista escreve sobre pessoas, a sua principal mensagem será deixar para a posteridade as suas virtudes e dificuldades, contribuindo para resgatá-las do anonimato do dia-a-dia. Sempre me fascinaram profissões como a deste Amolador de facas, navalhas, tesouras ou sombrinhas de senhoras, e este não é mais do que um despertar do leitor para um ofício que tenderá, infelizmente, a ser apagado pelos tempos.

O meu interlocutor amolador, apesar de trabalhar com objectos metálicos, não é de “ferro”. Tendo o estômago a dar horas, entra na Tasca do Quim. Aí adquirirá calorias e energias, a fim de continuar a sua longa peregrinação por estas aldeias limítrofes do Fundão.

Boa sorte SENHOR AMOLADOR! E cá fico à janela, à espera da sua música.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Março/2019

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