O CAPADOR DE PORCOS

“Quando se capa, não se assobia”

Adágio Popular

O almoço estava animado e recheado de iguarias pouco vulgares, que as mesas cosmopolitas desconhecem. A ementa era composta por uns ossos cozidos com batatas portuguesas calha beque, a maioria da população, compra as francesas Mozart, (se o compositor austríaco da Flauta Mágica soubesse que, tinha nome de batata sairia da tumba e iria cavar tubérculos), e grelos de nabo, com aquele sabor a acre, temperados com um dos melhores azeites de Portugal, o da Cova da Beira. Como aperitivo, umas morcelas do Talho do Parrana do Souto da Casa e do Fundão.

Num ambiente rural, na Freguesia do Barco, com o Zêzere a nossos pés, David Pinto Geraldes, nascido no Sobral de São Miguel, conta as suas histórias familiares dignas de registo.

Oriundo de uma família numerosa (nove irmãos: quatro raparigas e cinco rapazes), o seu progenitor – Abílio Pinto Geraldes -, andou mais de cinquenta anos a capar porcos. Com um “diploma“ passado pelos Serviços Veterinários da Covilhã, percorreu as aldeias dos concelhos da Covihã, Belmonte, Fundão, a castrar aqueles animais que todas as famílias engordavam para nos primeiros dias dos meses de Novembro e Dezembro se proceder à matança, uma festa que reunia todas as famílias.

A sua montada era uma égua bem constituída. Exibia uma navalha redonda de bico superior, indicada para a castração, e um instrumento musical, com o qual anunciava a chegada à aldeia para o exercício da sua missão.

Era uma cerimónia dolorosa para o animal, não havia anestesistas, mas sem esse golpe cirúrgico a carne não tinha gosto, não se podia comer, só sabia a barrasco.

Saia do Sobral de São Miguel e andava sozinho a maior parte das vezes, dias, semanas, e só ao fim de longo tempo regressava a casa carregado de feijão, grão, centeio, batatas e pouco dinheiro, naquela época contavam-se os poucos tostões existentes.

A mulher, Antónia Pinto, além de cuidar do grande aglomerado familiar, ainda apascentava um pequeno bando de cabras. Do leite fazia muitos queijos, apreciados pelas gentes naqueles anos de fome. Os fornos não coziam o pão necessário, porque a farinha estava racionada e as coimas eram elevadas. A Mãe dizia aos filhos: “não há pão, comei queijo.”

O pai, muito ausente da família por motivos profissionais, não descurava a educação dos filhos, todos frequentaram os estudos primários, todos fizeram a 4ª classe e mais tarde alguns ainda avançaram para outros graus de ensino.

Nenhum dos filhos quis dar continuidade a esta profissão, que não oferecia qualquer futuro. Com a desertificação devida à emigração, com tantas exigências, com tantas leis a dificultar os caminhos dos pobres agricultores, um simples cidadão já não pode criar o seu bacorinho. O mundo rural dos pequenos agricultores está a desaparecer e a profissão de capador já não existe. Citando Eugénio de Andrade, “ já não se vê o trigo/a vagarosa ondulação dos montes…”e assim importamos 90% de cereais.

O Capador tem um museu familiar onde guarda todas as memórias da sua profissão, os instrumentos com os quais, há mais de cinquenta anos, percorria dezenas de aldeias, ganhando o pão de cada dia para si e para os seus.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Janeiro/2017

O CAPADOR DE PORCOS

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