O CINEASTA…MORREU

Prefiro o céu pelo clima e o inferno pelas companhias

Manoel de Oliveira

 

Quinta-feira santa. A notícia espalhou-se por todo o mundo. Acabara de falecer no “Porto da sua infância,” um dos maiores realizadores do cinema mundial. Cento e seis anos civis, cento e sete anos na verdade. Décadas e décadas de invenção, juventude, coragem e resistência. O Homem que um dia disse que só “descansava a fazer filmes”, abandonou as filmagens da Vida, dia dois de Abril de dois mil e quinze.

Já com mais de um século de existência, sempre me impressionou a energia, criatividade e lucidez deste grande cineasta e figura maior da cultura portuguesa e mundial. Todos nos habituámos à sua imortalidade, e talvez por isso a sua morte tenha produzido uma onda de choque. Se até o Oliveira morreu, como não hei-de eu morrer um dia?

Curioso verificar, por exemplo, que a transmissão televisiva do seu funeral teve mais espectadores que todos os filmes juntos do mestre em Portugal. O espectáculo televisivo da morte teve mais público que o espectáculo cinematográfico da Vida. No filme “o Passado e o Presente”, já Manoel de Oliveira parodiara, através de uma viúva que só ama os maridos depois de mortos, esta característica bem portuguesa: a necrofilia ou o fetiche da saudade. O seu funeral poderia ter sido uma cena desse filme. João César Monteiro, defensor deste filme, escreveu em 1972: “Manoel de Oliveira é um realizador maior do que o país: ou o país cresce ou o realizador encolhe-se”.

Conheci-o pessoalmente em 2003 no Fundão, quando o Município lhe prestou uma significativa homenagem, no âmbito do programa “CINEMA-TE EM ABRIL”. O então Vereador da Cultura lembrou uma das mais belas definições de Cinema do próprio Manoel de Oliveira: “O Cinema é uma saturação de sinais magníficos cuja luz provém da sua própria ausência de explicação.” Oliveira, falando sobre “Non ou a Vã Glória de Mandar”, elucidou as pessoas sobre o plano da árvore majestosa que abre o filme: “Essa árvore é Portugal, só se transcende perdendo as raízes.” Questionado sobre a adaptação da “Alma dos Ricos” de Agustina Bessa-Luís, a sua esposa meteu a colherada, lançando um comentário engraçado e provocatório: “Não é fácil filmar a alma dos ricos, pois os ricos não têm alma.” Guardo dessa jornada, num Domingo de Páscoa, a imagem de um homem simples, esclarecido, bem-disposto e jovial (contam-me que de manhã cedo nadava na piscina do hotel). O seu olhar penetrante e atento, com um fundo de ironia, não deixava ninguém indiferente.

Segundo uma informação credível de José Esteves Lopes, (O Zeca da Casa Tininha – Rua 5 de Outubro – Fundão), Manoel de Oliveira também passou um dia por Aldeia de Joanes, pernoitando na casa da sua avó – Maria Isabel de Campos-, que tinha uma Taberna logo à entrada daquela Freguesia, numa belíssima moradia em granito, que ainda hoje existe.

Como quase todos os génios portugueses, Manoel de Oliveira foi mais reconhecido no estrangeiro do que no seu próprio país, onde foi quase sempre maltratado, impedido de filmar durante vários anos, alvo de censura política e económica, ou engavetado como “cineasta dos planos fixos e lentos”, o que numa obra tão diversificada e rica não corresponde de todo à verdade. Infelizmente, poucos portugueses, alimentados pelo preconceito, viram os seus filmes, enquanto lá fora se escrevia, se amava, se pensava e se premiava o seu cinema.

Não muito dado à sétima arte, assisti a vários filmes seus, lembro-me de ver “Douro, Faina Fluvial”, “Aniki-Bóbó”, “Amor de Perdição”, “o Passado e o Presente”, “Vale Abraão”, “Non ou Vã Glória de Mandar”, “Porto da minha infância”, “Palavra e Utopia”, “Cristóvão Colombo”, entre outros.

Captou em planos de grande beleza e ousadia a nossa condição humana, vícios e virtudes, os paradoxos e frustrações de Portugal e dos portugueses, as alegorias do poder e as mistificações da nossa história colectiva. Fez de tudo no Cinema e na Vida. Fez do Cinema Vida e da Vida uma Obra de Arte.

Obrigado Manoel de Oliveira!

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Abri/2015

 

Manoel de Oliveira

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