O FUNERAL DE UM VARREDOR

Início da última semana do ano, uma manhã fria e gelada. A geada estende-se pelos terrenos agrícolas e a estrada está um perigo, motivo para alguns soltarem vozes de protesto: “a União de Freguesias já devia ter deitado sal na estrada nacional”. Outros, abençoam a geada purificadora dos vinhos caseiros, fortalecedora dos ossos, aliada no combate aos parasitas da agricultura (só lamentam que não consiga eliminar outro género de bicharada).

Estes pensamentos “gelados” são aquecidos pela notícia de última hora: “faleceu o ex-varredor, o funeral é hoje. Não teve tempo de beneficiar da reforma.”

Todos ficam em silêncio e a memória viaja pelo lixo nas nossas aldeias, vilas e cidades, que estes profissionais anónimos ajudam a remover.

Há anos, numa prova escrita para admissão de elementos nas Forças de Segurança, um dos grandes temas era “as profissões”. Numa questão, os alunos deveriam defender a dignidade da profissão de varredor. Quem a menosprezou, quem fez uma análise pejorativa, foi varrido do concurso.

Há países onde esta profissão é das mais bem pagas e altamente valorizada pela sociedade. Infelizmente não é o caso de Portugal.

O nosso Varredor passou uma vida com a vassoura nas mãos, limpando muitas ruas e nem sempre foi reconhecido pelo seu trabalho. Havia pessoas que mal o HOMEM virava as costas, já estavam propositadamente a sujar espaços acabados de limpar. Nas noites de recolha, passando pelas ruas estreitas da aldeia, não se acanhava em ir acordar o autarca, para mandar retirar os carros estacionados que bloqueavam a passagem, o que criava alguma azia aos condutores egoístas e insensíveis a esta missão.

Numa aldeia vizinha do município, só varria a rua principal, porque não havia dinheiro para lhe pagarem o trabalho das ruas secundárias.

Era uma pessoa sui generis, muito castiço, de falas certas e oportunas, dialogante, não escondia aquilo que lhe ia na alma. Tinha as suas ideias, as suas opiniões, expunha-as e defendia-as. Muitos não concordavam, mas ele mantinha-as, não as varria para debaixo dos tapetes rolantes do oportunismo.

Adormeceu para a eternidade no Dia de Natal, ele que tinha junto de si um Presépio Vivo e Permanente. Na quinta arrendada, lá tinha o estábulo, a manjedoura, os animais iguais aos que aqueceram o Menino Jesus, não lhe faltavam as ovelhas. Ali tinha a sua Gruta de Belém e os terrenos agrícolas circundantes onde gastava as suas energias e lutava pela vida.

Apesar de um simples Cidadão, um Ex- Varredor, um agricultor, muitos foram os amigos que o acompanharam à última morada, muitos vizinhos se associaram à dor dos familiares. Muitos mais que alguns endinheirados e de classes altas.

Mais uma vez, um idoso missionário presidiu às exéquias fúnebres. Falou pouco mas acertado. Mais uma vez, se verificou o “ formigueiro”, aquele aglomerado de pessoas que se reúne junto à capela funerária ou Igreja, falando alto como numa feira. Ai Varredor, se pudesses varrer a porcaria que sai da boca de algumas pessoas…

Se o nosso Varredor exercer a sua profissão no Além, desconfio que terá muito trabalho com horas extraordinárias. Nós por cá ficamos mais sujos.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Janeiro/2017

SABUGAL – RECORDAR O TIO ANTÓNIO REINO “O FERRADOR”

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