O REGRESSO…

Um dos valores dos quais não abdico é a gratidão para quem se lembra das nossas fragilidades físicas, psicológicas e até morais. Infelizmente ainda há quem pense que o culto deste valor está sujeito a imposto.

Quando se recebem afectos e competências de serviços de saúde ou outros, quando nos acompanham e nos estimulam, só há uma atitude a tomar: manifestar gratidão a todos esses agentes.

Com o apoio de um irmão escuteiro, segui com destino a Condeixa-a-Nova, à Casa de Saúde Rainha Santa Isabel das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus. Foi aí que conheci uma ajuda voluntária, sem hipocrisia, sem estar à espera de contrapartidas. Uma colaboração directa, espontânea, permanente.

Numa sociedade tão competitiva, com mais receios do que valores, com mais muros do que pontes, não admira que o número de doenças do foro mental cresça diariamente, muitas delas sem o acompanhamento adequado.

Em Condeixa-a-Nova há uma Instituição preocupada em dar uma melhor resposta a estes problemas, estando lá os guindastes para alargamento desta Unidade de Saúde, criando assim mais espaço para acolher com qualidade e humanidade as Pessoas que carecem deste tipo de apoio. Ontem como hoje os mesmos objectivos nas diversas unidades de tratamento, o melhor acolhimento e assistência, as mesmas afectividades, ambiente ocupacional, espiritualidades… Nos espaços que agora percorro recordo os tempos da minha recuperação. Encontro num dado corredor um enorme placar com uma mensagem natalícia individual, e logo outro assinalando o Dia Internacional das Pessoas com Deficiências.

Entre abraços, beijos e cumprimentos não dei pela manhã passar, chegando rapidamente a hora do almoço numa movimentada churrasqueira a preços populares.

Enquanto saboreamos o repasto não conseguimos estar descansados. As notícias só nos falam de greves e mais greves de todos os ministérios e outros serviços públicos, fazendo-nos lembrar os tempos do PREC (Processo Revolucionários em Curso), em que as greves apareciam que nem míscaros nos pinhais da Cova da Beira.

Despedindo-me com saudades destes meus amigos, procurei aproveitar o tempo que me restava com a nossa cultura. Há muito que estava na mente uma visita ao Museu Romano POROS (Portugal Romano em Sicó), instalado na Quinta de S. Tomé, numa Casa Senhorial, tendo diversos vestígios da presença romana, nomeadamente salas de banhos, termas, saúde e higiene. Quis sentir-me um verdadeiro «romano» durante o tempo que estive naquele museu, regressando e recordando o meu ensino secundário e as lições do Dr. João Castro Nunes, um dos melhores professores nas disciplinas de português, grego, latim e história.

Fiquei então a saber que os Romanos chegaram à região de Sicó em 135 a.C., nas campanhas do Imperador Júnior Bruto.

Na recepção do Museu conheci um rapaz casado com uma jovem do Tortosendo, sendo também proprietários de uma quintinha em Alpedrinha. Tiveram de abandonar a Beira Baixa para ir trabalhar em Condeixa-a-Nova. A sua gentileza e as nossas proximidades geográficas abriram caminho para um franco diálogo.

Enquanto me explicavam o importante património romano, falavam-me preocupadamente na falta de tempo para ir apanhar a azeitona do seu olival, em Alpedrinha, que lhes oferece o melhor azeite do mundo. Lembrei-lhes que foram os Romanos que difundiram no Norte da Península Ibérica o vinho e o azeite com o cultivo da vinha e das oliveiras. Também, em termos gastronómicos, com o bom azeite romano surgiu a Dieta Romana, temperada pelo sal produzido nas salgadeiras, em Setúbal, usado no tempero e conservação do peixe das terras do Sado. Nos tempos actuais a sucessora desta Dieta Romana é a famosa Dieta Mediterrânica.

O POROS tem dois pisos: no primeiro andar a parte social, organizativa, estratégica e comunitária do Povo Romano e no rés-do-chão a vida familiar, íntima e pessoal.

Durante duas horas acabei mesmo por ser um «romano» em Condeixa, na companhia de duas turmas de estudantes e outros visitantes, tendo feito esta viagem pela Cultura e Civilização do Império Romano.

À saída uma agradável surpresa! Algumas das Pessoas Assistidas, das Irmãs Hospitaleiras da Casa de Saúde, esperavam com as suas auxiliares pela sua vez para também se tornarem «romanas» e mais enriquecidas cultural e socialmente. Despedi-me…hospitaleiramente!

Um Santo Natal a todos.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Dezembro/2018

Comentários

Comentários