O ĂšLTIMO PASTOR URBANO
É genuĂno de Aldeia de Joanes – FundĂŁo. Ali nasceu, cresceu e vive há mais de cinquenta anos, apenas se ausentou durante trĂŞs anos para o cumprimento obrigatĂłrio do serviço militar, com uma comissĂŁo em Angola.
Vive em territĂłrios histĂłricos, já foram de muitos povos, com vestĂgios da passagem romana e moura. Perto da sua residĂŞncia, um local paisagĂstico por excelĂŞncia, ainda há quem se lembre e faça memĂłria de ouvir dos seus antepassados que na Fonte do Mergulho surgiam ais de mouras encantadas, que desencantavam os cristĂŁos. TambĂ©m por aqueles arrabaldes passaram peregrinos a caminho de Santiago de Compostela, como confirmam sinais religiosos e toponĂmicos.
O mundo rural tradicional está em vias de extinção. Uns partem, cada vez mais debilitados, e a Agricultura Familiar, um dos grandes suportes humanos e sociais, está por um fio… Os terrenos agrĂcolas onde viviam e tiravam o sustento estĂŁo a desaparecer, e lembremos que os campos em Aldeia de Joanes sempre foram viveiros de famĂlias, comunidades e solidariedades. Todos nascidos, baptizados ou casados nos conhecĂamos e convivĂamos na sequĂŞncia do calendário da vindima, do tratar e fazer a prova do vinho, da apanha da azeitona, das matanças do porco… Era na Festa do Natal e na Páscoa, eram as sementeiras, as ceifas, as malhas, a colheita de diversos produtos agrĂcolas. Por exemplo, em fins de Setembro, na Festa de SĂŁo Miguel, fechava-se o ciclo das colheitas e fazia-se um balanço conjunto. O calendário dos Homens confundia-se com o calendário rural. As pessoas, as máquinas e os animais eram colectivos, eram partilhados.
TambĂ©m muitos agricultores se dedicavam Ă criação, tratamento e cuidado de animais de raça caprina, ovina e bovina. Actualmente, em Aldeia de Joanes, Ă© uma raridade existir a profissĂŁo de pastor. O Ăşltimo pastor urbano – Norberto Paulouro Neves – mais conhecido por todos como o Betinho, que durante dĂ©cadas foi guardador de um rebanho, viu-se forçado a cessar as suas funções pastorĂcias. Diz-me que quem acabou com os pastores foram os aramados, a partir daĂ deixou de existir a transumância.
AlguĂ©m lembra que, quando se quis fazer uma festa da transumância, surgiram imensas dificuldades para se arranjar um rebanho de ovelhas que soubesse percorrer longas distâncias, porque já nĂŁo o fazem Ă procura de pasto. Agora parece sĂł existir a transumância motorizada, recorrendo-se a sistemas electrĂłnicos ou computorizados. Dizem-me que já há paĂses onde os drones sĂŁo programados para serem os pastores do futuro.
O amigo Betinho confessa que gostava imenso de ser pastor porque tinha um especial carinho pelos animais. Ser pastor dá uma sensação de liberdade, porventura como nenhuma outra profissão. Também se aprende muito com os animais, mais fáceis de entender que muitos homens.
O nosso homem olha para trás com saudade e tristeza por não poder acompanhar o seu rebanho urbano. Hoje vive encostado a um velho cajado de pastor.
As doenças, que a todos atingem, uns de uma forma, outros de outra, não nos permitem prosseguir o trabalho de sempre.
O meu amigo Norberto Paulouro Neves com as suas debilidades fĂsicas já precisa de dois “cajados” para vencer as vicissitudes com que a vida nos surpreende.
No meu pequeno territĂłrio agrĂcola já nĂŁo ouço o balir das ovelhas nem os sons dos chocalhos. Já nĂŁo ouço os seus chamamentos…
Dizem que é a lei da vida…
AntĂłnio Alves Fernandes
Aldeia de Joanes
Julho/2019
