Quase ninguém esquece o guarda-chuva quando chove. Mas se entramos num café e de súbito deixa de chover, lá ficará esquecido como utensílio de caridade involuntária. Conheci um Homem na feira da ladra que vendia todos os guarda-chuvas que encontrava perdidos. Com o São Pedro obstipado desconfio que esse negócio ande pelas ruas da amargura, pedrinha no sapato do nosso estrondoso sucesso económico…

Há guarda-chuvas de todas as maneiras, feitios, cores e custos, mas os que mais me divertem são os baratos das Lojas Chinesas, gosto de ver as suas pernitas a saltitar no vento e a cara das pessoas a meter água e piedade. Uns adoram cantar à chuva, outros constipam-se com um pingo da torneira.

É de referir que há mais de quatro mil anos os Chineses inventaram o guarda-chuva, no Egipto e na Assíria também apareceram as primeiras sombrinhas para abrigar do Sol, da Chuva ou de uma eventual queda do Céu na cabeça. Na Grécia Antiga o guarda-chuva civilizou-se, ganhando uma grande actualidade social: esconder a cara a pretexto do tempo instável.

No século XVI, os países nórdicos foram os primeiros a meterem-se debaixo do guarda-chuva, impondo a modalidade aos países do Sul.

O guarda-chuva também é um sinal de riqueza, que os há a 500 euros, com pau de nogueira, cerejeira, carvalho, castanheiro, com focinho de cão, dentes de crocodilo, pele de tigre ou de lobo, cabedal de rinoceronte, cortiça de português, à vontade, à bolsa e à medida do freguês. E se o cliente ainda não tem o guarda-chuva de acordo com o seu estatuto, sempre se pode forrar com luxuriosos tecidos asiáticos.

Quanto às varetas, podem ser resistentes como aço inoxidável ou moles como manteiga, e o seu número é variável. Aos idosos e às crianças não se recomendam menos de 9 varetas, um temerário que venda saúde pode satisfazer-se com 5 varetas.

O guarda-chuva entrou em Inglaterra pela mão de Jonas Hanway, que durante trinta anos foi o único cidadão de Sua Majestade a usá-lo em Londres, acabando por ser ridicularizado pelo povo. Gozado por todos terá dito: “Chegará o tempo em que o povo não viverá senão debaixo do guarda-chuva, até lá podem rir, pelo menos enquanto não se constipam.” A revolução industrial trouxe o guarda-chuva às famílias mais cinzentas, mas a Inglaterra parece não ter ganho em inteligência.

Quando era criança um senhor de idade vinha à Bismula consertar os guarda-chuvas mais vacilantes, era tido por mim como um herói que desafiava a chuva e o vento. Um dia deu-me um e disse-me: “ó meu menino, este guarda-chuva até ampara os relâmpagos.” Fiquei muito contente e deixei de temer as trovoadas.  

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Fevereiro/2018

 

Aldeia de Joanes

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