POIS É…

É de humana condição convencermo-nos que duramos para sempre. Passada a barreira dos 70 anos, se beneficiámos até à data de boa saúde, temos mesmo o descaramento de pensar: “Querem ver que a vida é mesmo porreira, que não há doença nem morte senão para os outros?” Este véu de má-fé com que todos os humanos cobrem o rosto, um dia cai por terra. Como me dizia uma velhinha internada na cama de um hospital: “até a uma certa velhice alguns chegam, mas há uma etapa que ninguém ultrapassa. Não se iluda, a igualdade só existe no Morrer.” Entretanto, a nossa vida continua…

As doenças limitam os nossos movimentos, impacientam-nos, revoltam-nos, levam-nos a disparates e erros que julgávamos impensáveis. Mas, no meio dos sofrimentos, há como que uma saída precária da dor, e ainda vamos buscar forças para visitar amigos, conhecer novas terras e novas gentes, e nos espaços dos tratamentos sentir por vezes a solidariedade entre as pessoas.

O nosso Homem não pode ficar agarrado ao pessimismo nem às angústias da finitude. Hoje vemo-lo às voltas no Chiado, distraindo-se da doença no meio de turistas montados em tuks-tuks, ansiando por chegar perto do Rio Tejo e respirar a maresia. Talvez vá ao Museu da Moeda, talvez uma exposição, talvez um barco para a outra margem, qualquer coisa que o faça sentir vivo.

No Lumiar, onde todas as tardes faz tratamento, o nosso Homem encontra no Hospital Psiquiátrico das Irmãs Hospitaleiras velhos baús com documentos preciosos. Assinalam a presença da sua saudosa Mãe, na década de trinta do século passado. Nunca um espólio de uma Congregação lhe foi tão amável, pois descobre vestígios do trabalho da sua Mãe na recuperação de muitos doentes. Fixando um quadro que anuncia a dedicação das Irmãs Hospitaleiras, o nosso Homem invoca em silêncio a figura da sua Mãe, pedindo-lhe mais saúde para todos os doentes.  

O Homem continua a sua marcha. Está agora em Alvalade, nas instalações da ADSE, há papelada para entregar. Concentram-se centenas e centenas de pessoas, a barulheira é tão ensurdecedora que se não exibissem o cartão de cidadão julgaria estar na presença de uma outra espécie.

Segue-se uma visita a um colega da Penitenciária de Lisboa. É recebido com muita amabilidade, fala-se do passado e do presente, e desabafa-se: “como é possível entrarem na cadeia tantos objectos interditos com tanto controle e vigilância?”  

É hora de partir para a Cidade de Setúbal, vai participar no 8º Aniversário do Agrupamento da Ordem Terceira, onde deram os primeiros passos figuras ilustres do Escutismo Nacional, mais propriamente da região de Setúbal.

Infelizmente, como nas guerras de paróquia, os escuteiros também parecem andar de costas voltadas e, neste momento, a quase centenária que tantos homens formou está de portas fechadas.

No sentido contrário, o Grupo da Camaradinha, composto por dezenas de jovens, entre eles a sua sobrinha Beatriz, faz a festa da Profissão de Fé em espírito de colaboração e fraternidade.

Na Cidade do Sado decorre a centenária procissão do Senhor do Bonfim, padroeiro dos Pescadores, acontecimento muito importante que foi exportado para o Brasil (não foi só a semente da corrupção que levámos nas caravelas), hoje com diversas festas espalhadas pelo país.

O itinerário do nosso Homem não termina sem assistir ao lançamento de um romance de António dos Santos sobre uma instituição que acolhia muitos jovens com dificuldades, e a uma peça de Teatro no Museu do Trabalho. Lá encontra reflectido o trabalho de muitos Homens e Mulheres no auge da Indústria das Conservas em Setúbal (hoje já não há uma fábrica). O trabalho duro, a qualquer hora do dia e da noite, é explicado por uma trabalhadora: “eu ia para a fábrica à noite, os meus filhos ficavam com a minha mãe quando podia ser. Outras vezes levava-os comigo, metia-os dentro de um caixote na fábrica e tapava-os com um xaile. As caixas do peixe eram os berços dos nossos filhos. Um dia pedi dez tostões ao patrão, ele negou-me essa miséria. No outro dia estavam a fazer-lhe o funeral. Desculpem estas lágrimas, comecei a trabalhar nesta fábrica com nove anos”.

O nosso Homem despede-se olhando para a imagem do inesquecível Michel Giacometti, que um dia afirmou: “quando morrer quero ser enterrado no meio do povo português que tanto amei”.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Junho/2017

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