POR AQUI NÃO HÁ REDE!

Nos meus tempos de criança, concretamente na minha aldeia raiana, as únicas redes que existiam, para além da pesca no Rio Côa e ribeiras afluentes, eram os chamados “contrabandistas”, passando mais tarde aos “passadores” de clandestinos para França e de algumas capoeiras com medo das raposas matreiras. Não havia uma rede rodoviária em condições, levando horas qualquer deslocação, nem muito menos linha ferroviária, que passava a léguas de distância, com difíceis acessos. As redes de água e esgotos eram um “luxo” para algumas cidades e vilas. Nos últimos tempos, também na república das bananas não há rede para suster o Ali Baba e os mais de quarente ladrões.

Apesar de todo este isolamento, sem rede, ou redes, na escola primária era obrigatório saber, de cor e salteado, todas as redes que não tínhamos: os Caminhos de Ferro, onde circulavam aqueles “monstros” a carvão, com carruagens de bancos de madeira, autênticas gaiolas, nas redes da Beira Baixa, Beira Alta, do Tua, do Douro, do Sado, do Oeste e de todos os pontos cardeais, não esquecendo as ex-Províncias Ultramarinas. Na realidade, era viver numa virtualidade, imaginando como seriam todas essas terras representadas em pontinhos nos mapas.

Quanto à rede rodoviária, era uma miragem, tantos barrocos tornavam impensável um aterro ou escavação… Os escassos veículos a motor, das classes muito abastecidas e ricas, só eram usados para ir à Guarda, Lisboa ou Porto.

No final do ensino primário, apareceu, graças aos esforços do pároco de minha aldeia, o telefone, também agarrado a mais uma rede. Mas este sacerdote trouxe ainda a telefonia, um móvel imponente com umas válvulas que pareciam lâmpadas, que alimentada a bateria conseguia juntar-se à rede radiofónica nacional, graças ao fio longo que estendia pelas árvores e telhados, que fazia de antena com o cumprimento de onda da época. Estávamos assim ligados a mais uma rede.

Mesmo sem darmos pelo tempo a passar, a sociedade evoluiu e transformou-se bastante, surgindo nos últimos anos, por interesses políticos ou económicos, as redes de betão, asfalto, construindo-se novas estradas e autoestradas, esquecendo-se as redes ferroviárias.

Na última década, com a evolução dos computadores e a chegada da Internet, a ligação em rede passa a estar na ordem o dia, ao ponto de nos bater à porta e nos invadir a privacidade.

O aparecimento e desenvolvimento dos instrumentos de comunicação – telemóvel, computador, smartphone, tablet… – popularizou a forma de comunicar, fundamentalmente para a juventude, que não larga estas geringonças de partilha de informação, usando e abusando das chamadas redes sociais.

Assim surgiu o Twitter, o Facebook, o Instagram, o Messenger, o WhatsApp e tantos outros que andam por aí à mão de semear, permitindo um descontrolo desregulado de quem nos pode seguir, ouvir ou até ver.

A dependência chega a níveis que roçam o irracional: por exemplo, uma actividade ao ar livre com jovens e adultos não se realizou, numa zona de beleza paisagística invulgar, porque não havia rede de telemóvel, tornando-se um perigo e um risco de segurança. Pergunto como seria há 20 ou 30 anos? Ninguém saía das ruas das aldeias, vilas ou cidades com mede de se perder? E nesta longínqua Beira, esquecida por detrás dos montes, todos os locais têm rede?

Há dias passei por uma aldeia raiana e alguns dos poucos habitantes que ali residem, e resistem, estavam muito preocupados porque já há dias que não tinham rede e não sabiam como agir. Como saber as últimas gracinhas do Facebook ou do Instagram? Só restava mesmo o programa da Cristina Ferreira…

Felizmente, ainda há pais que põem ordem na rede e não autorizam que os seus filhos às horas das refeições, ou do convívio familiar, tenham acesso à rede. É uma tremenda falta de educação e esta falta de princípios e de civismo, como receber uma visita amiga sem tirar os olhos do tablet, é algo que pais e educadores devem dar como exemplo. Se os tablets fossem de chocolate, ainda se compreenderia e todos acabariam com a boca doce, arranjando uma forma de trocar presentes e de rir com as aventuras dos mais novos e as conversas dos mais velhos.

Sabemos que muitos dos nossos jovens, e adultos, passam horas a fio agarrados a estes instrumentos de ex-comunicação, com mensagens e outros conteúdos sem qualquer interesse, alguns bem desagradáveis. Vivem neste vício, ficando mesmo alineados numa rede, e já não há a rede de outrora que possibilitava a comunicação pessoal.

Com estas novas tecnologias, a nossa liberdade está cerceada, embora aparentemente mais aberta ao conhecimento, à cultura, à informação… Cada vez mais perto e cada vez mais longe dos afectos e das humanidades.

Há quem veja muitas vantagens, sem dúvida que também as há, mas também já há cidadãos que procuram o isolamento e o afastamento, cortando com estas redes, em benefício da sua liberdade, descanso e sossego.

E, por enquanto, ainda subsistem outras redes, que nos amparam e nos ligam verdadeiramente. E há que protegê-las!

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Fevereiro/2019

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