PRIMÓRDIOS MILITARES

O jovem tinha acabado de vencer, com distinção, o terceiro ciclo liceal no verão de 1966. Mas não o deixaram matricular na faculdade, porque em Janeiro de 1967, juntamente com quase um milhar de estudantes, rumou à Escola Prática de Infantaria, a funcionar no Convento de Mafra, onde iria frequentar o 1º Ciclo do Curso de Oficiais Milicianos.

Os que tinham famílias abastadas chegaram de automóvel: fiat 850, opel kadett, simca 1100, Renault 3 e 4L,anglia,ford ou carochinha. A maioria, filhos de gentes pobres ou de fracos recursos, ia de autocarro, pois a Estação de Caminho-de-Ferro ficava afastada: quem arriscasse essa viagem teria de alugar um táxi. Se o dinheiro já era pouco para autocarros, muito menos seria para pagar táxis.

O jovem mancebo, numa manhã fria e gelada, apanhou o autocarro em Setúbal até Cacilhas, localidade onde se diz que muitos tiram cursos superiores, a chamada “Universidade de Cacilhas.” Ali apanhou um velho cacilheiro, atravessou o Tejo e atracou no Cais do Terreiro do Paço em Lisboa. No Campo das Cebolas, meteu-se num autocarro, rangendo por curvas e contracurvas, e lá chegou a Mafra.

Com a bagagem às costas, o apurado para todo o serviço militar, não encontrou uma cara conhecida, entre centenas e centenas de jovens.

Num improvisado gabinete, situado num corredor sem fim, recebeu as primeiras instruções de uma equipa constituída por um sargento, um furriel e um cabo. Ali deixou de ter nome, a sua identificação resumia-se ao número da caserna.

Na descoberta da camarata começou a via-sacra militar. Sempre que questionava a velhice militar, da soldadesca, recebia informações contraditórias: à esquerda, ao centro, atrás, a última à direita, a terceira a contar do fim…

Pelos longos corredores conventuais, pelas salas de formação, por todo o lado, surgiam inúmeros slogans patrióticos: “o boato é a arma da reação, Portugal é do Minho até Timor, a Pátria constrói-se todos os dias.”

Arrumada a bagagem pessoal, os altifalantes anunciaram que todos os mancebos deveriam ter o cabelo devidamente cortado, um corte à militar. Logo na primeira formatura militar, o instruendo recebeu o primeiro prémio, passando o fim-de-semana de castigo no quartel, sem direito a saída.

No ritual de entrega do fardamento – o da instrução e o de saída -, o cadete aproveitou a privação da liberdade para com linhas e agulha passar uma revista reforçada aos botões das fardas, da sua e dos companheiros, mas nenhum saiu do lugar apesar dos esforços do nosso “alfaiate”. Também aprendeu a fazer o nó da gravata, que nunca mais esqueceu.

Na entrega de armamento – uma velha mauser, saibre e um cantil -, recebeu indicação de que se perdesse as peças ou se as deixasse roubar, cometeria um crime e sentaria o cú no mocho do Tribunal Militar. 

Ao cadete instruendo tocou-lhe na camarata conventual, o terceiro andar do beliche, junto a uma janela que dava para um pátio interior, onde eram vomitados os restos espumosos da cozinha geral, para gáudio das ratazanas bem nutridas. Como pareciam coelhos, o nosso cadete sentia necessidade de atirar a matar.

Passados alguns dias, centenas de militares receberam ordem de vacinação contra infeções e maleitas. Todos davam o ombro, mas só alguns aguentavam a “pica” em pé, a maioria caia que nem tordos abatidos pelo caçador.

Um habitante da terra das melhoras trutas do País, situada na Beira Baixa, deu-se a conhecer ao nosso cadete, chamando-lhe “ó colega!”. Um oficial do quadro permanente ouviu e advertiu-o: “aqui não há colegas, colegas são as p…. Aqui somos todos camaradas”. Este camarada era um ex-estudante de Direito em Coimbra, convencera a família de que tirara o respeitável “curso das leis”, quando na realidade se licenciara noutras lides, com o Grupo de Forcados Amadores na Figueira da Foz.

Um camarada, um amigo samaritano, nas marchas de três dias nas matas da Ericeira, debaixo de um frio siberiano, correu graves riscos para dar conforto aos corpos gélidos e fatigados dos companheiros da sua tenda militar. Deslocou-se a duas povoações vizinhas e regressou de madrugada com duas garrafas de aguardente e pães com chouriça para todos.

Como o instruendo beirão não cortava a barba (ainda era imberbe), várias vezes lhe cortaram o fim-de-semana.

– Dá-me licença, meu tenente, não fiz a barba porque não encontro pêlos na cara para cortar.

– Com o tempo que vais ficar de castigo no quartel, vais ter muitas horas para os descobrir, respondia-lhe o novato oficial da Academia Militar.

Antes de ingressar nas fileiras da tropa, avisaram-no para ter os olhos abertos, com um olho no burro e outro no cigano, estar sempre pronto a desenrascar-se. Assim aconteceu, quando no bar do quartel lhe roubaram a boina. Depressa localizou uma, onde cabiam duas cabeças, mas também depressa se adaptou às circunstâncias militares.

Na Malveira, os restaurantes forneciam bifes com batatas fritas a preço da uva mijona, pelo que não faltavam magalas com prés de miséria a ir lá jantar uma vez ou outra. Um ano depois, a Polícia Judiciária descobriu um matadouro clandestino, que fornecia carne de burro aos restaurantes. Ninguém morreu e houve até quem comentasse: “nunca comi carne tão boa.” Com o estômago dos nossos militares, não admira que os burros estejam em vias de extinção.

Num curioso paradoxo, uma aldeia limítrofe de Mafra, chamada PAZ, era inúmeras vezes invadida por centenas de militares armados até aos dentes. Em vez de PAZ, devia ser a aldeia da GUERRA.

O instruendo-cadete estava cansado da instrução militar, prática e escrita, sem horários, e no final da semana era feito um teste de avaliação. Uma noite, no início da madrugada, os altifalantes anunciavam a ida para formatura, e todos saltaram dos colchões de espuma, já era um luxo, porque mais tarde como aspirante miliciano dormiu na Primeira Companhia Disciplinar de Penamacor em colchões de palha. Chegados à parada, viu-se um grande aparato militar: ambulâncias, militares com batas brancas de médicos, enfermeiros, carrinhas de enfermagem. Iria decorrer um treino militar, manobras noturnas com obstáculos: valas, condutas de esgotos, elementos estranhos, especialistas em agressões. Apresentado o programa de trabalho noturno, uma voz militar anunciou:

– Alguém que sofra do coração ou outras doenças impeditivas, deve avisar imediatamente.

O nosso beirão apresentou logo queixa e foi visto por um médico novato, que para mostrar serviço lhe diagnosticou um problema cardíaco.

O nosso beirão, muito satisfeito por ter enganado o médico, subiu para o jipe e, na companhia do Comandante da Unidade, Coronel Ribeiro Faria e do Capitão Gonçalves, Diretor do Curso de Oficiais Milicianos, assistiu e acompanhou ao lado destas altas individualidades militares como espectador, à medonha instrução nocturna.     

Aos sábados de manhã, os cadetes pareciam presos a sair em liberdade do Estabelecimento Prisional, procurando desesperadamente os autocarros que os levariam para Norte, Centro ou Sul, conforme as suas vontades. As viagens eram organizadas pelo Sargento Leste, que além das tarefas militares tinha vocação para o aluguer de transportes.

No final do curso, devolveu-se o armamento recebido e, espanto dos espantos, muitos dos militares, por uma ranhura, mancha na defunta mauser, ficaram sem o miserável soldo militar.

Ao fim de quatro meses, os cadetes do primeiro ciclo, em frente ao Convento de Mafra e na presença de muitos populares, e de alguns familiares mais endinheirados, juraram defender a Pátria. Muitos morreram no ultramar.    

Foi desta imensa legião de oficiais milicianos que nasceu a Revolução dos Cravos, facto que muitos procuram ludibriar.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Novembro/2016

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