As pessoas maravilham-se com a doutrina de Jesus e consideram-na “uma nova doutrina”. Notam que, diferentemente dos escribas, Jesus ensina com autoridade, algo que O distingue de todos os outros mestres.
Os escribas e os fariseus limitam-se a repetir o ensino que receberam dos seus mestres. E este ensino consiste essencialmente em leis e preceitos, com os quais pretendem regular e controlar todos os âmbitos da vida das pessoas. Eles apenas memorizaram, não assimilaram nem assumiram pessoalmente os ensinamentos que transmitem. Menos ainda vivem o que ensinam. São, pois, mestres sem criatividade e sem autoridade moral, sem espírito de serviço e sem sentido de missão. No entanto, gostam de ser tratados por mestres!
A doutrina de Jesus sai-Lhe de dentro, fala de Deus como de Alguém que vive no Seu coração e de quem conhece bem a Sua vida íntima, apresentando-O como um Pai cheio de amor pelos homens e não como um legislador poderoso e punitivo. Não cita nenhum mestre, o que Ele diz nunca foi dito antes por ninguém. Depois, Jesus dá a prioridade ao homem, defendendo que este é mais importante do que a lei e que, por isso mesmo, a lei deve estar sempre ao serviço do homem. Mais, Jesus aproxima-se das pessoas, perscruta os seus anseios e inquietações, fala-lhes numa linguagem simples e acessível, ilumina-lhes a vida e suaviza as suas dores. Finalmente, Jesus confirma a sua doutrina com as obras que realiza. Neste episódio, enfrentando e dominando o demónio, Jesus mostra que tem poder para libertar o homem do mal e do pecado.
Esta nova doutrina de Jesus é mais vida e obras do que verdades e dogmas, mais testemunho do que palavras, mais serviço do que poder. Nesta nova doutrina, o amor vale mais do que a lei e a justiça e a misericórdia mais do que o culto. Com esta nova doutrina, Jesus coloca o homem no centro das atenções de Deus, devolve-lhe a sua dignidade e torna-o verdadeiramente livre.
“Que tens Tu a ver connosco?” O demónio sente-se incomodado e ameaçado com a presença de Jesus, pois sabe quem Ele é e, nessa mesma medida, pressente que está a chegar ao fim o seu domínio sobre o homem. Temendo perder esse domínio, o demónio arremete contra Jesus, insinuando que Ele o deve deixar em paz.
Jesus reage, impondo-lhe silêncio e exigindo que saia do homem. O que o demónio diz de Jesus é verdade (o santo de Deus), mas Jesus não quer que seja o demónio a revelá-lo às pessoas. Estas devem chegar ao conhecimento de Jesus a partir do que Ele ensina e faz. Naquele contexto, não deve ser porque o demónio o diz, mas porque Jesus vence o demónio que as pessoas devem descobrir a sua identidade. O demónio saiu do homem. O demónio é derrotado, o homem recupera a sua liberdade, a palavra de Jesus mostra toda a sua eficácia. É tudo isto que leva as pessoas a maravilharem-se e a concluírem que o ensinamento de Jesus é realmente “uma nova doutrina.
“Que tens Tu a ver connosco?” Nos nossos dias, também são muitos os que se sentem incomodados com Jesus e com a Sua “nova doutrina”. Entre muitos outros, contam-se os que procuram riqueza sem justiça, poder sem legitimidade, fama e prestígio sem competência nem mérito; os que querem viver a sexualidade sem amor, o casamento sem fidelidade, gozar a vida no desprezo pelos outros e pela própria consciência; os que evocam pretensos direitos para defender o aborto e a eutanásia, o divórcio e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a abolição de símbolos cristãos nos lugares públicos e o relativismo moral.
E também no seio da Igreja, são muitos os que se sentem ameaçados pela “nova doutrina” de Jesus, pois Jesus não quer que a Igreja se organize como uma estrutura de poder, que a religião seja ocasião de negócio e fonte de lucro, que o ministério esteja ao serviço de ambições e vaidades pessoais; que a palavra de Deus seja substituída por complicadas e incompreensíveis teorias e doutrinas, que a lei do amor seja obscurecida por uma multiplicidade de preceitos e tradições humanas. Numa palavra, porque Jesus quer que sejamos odres completamente novos para acolher o vinho novo, e não se contenta com o remendo novo no vestido velho, como é a grande tentação de todos nós.

Pe. José Manuel Martins de Almeida

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