SOLIDÃO

Há mais de uma vintena de anos que esta minha amiga vive sozinha numa casa emprestada por um sobrinho radicado nos Estados Unidos da América.

Este visita a sua tia uma vez em cada ano, porque a distância é grande, as viagens são caras e o tempo de férias é curto. Além de afectos e alguns “mimos”, traz-lhe ainda medicamentos genéricos vitamínicos, para lhe prolongar esta já longa velhice. A parca reforma não lhe dá para as despesas de farmácia.

A sua casa é um sexto andar virado a nascente. Aí passa horas seguidas à janela pensativa, virada para este ponto cardeal, o que sempre lhe dá alguma esperança na monotonia da vida. Naquele lugar encontramo-la sentada e dobrada pelo peso dos anos, às vezes encostada a uma velha bengala, que a ajuda a caminhar na navegação das horas, dos dias, dos meses, sem grandes sonhos e horizontes. As janelas ao poente, onde se veria o pôr-do-sol, para esta octogenária já só são sombrias e tristes.

Ao seu lado habitava uma vizinha, já de longa data sua conhecida, preocupada com causas sociais e humanitárias e que lhe dava imenso apoio, mas em face dos problemas de saúde teve necessidade de se ausentar para fazer demorados tratamentos em Lisboa.

Muitas vezes pergunta quando volta: “faz-me tanta falta essa senhora, que me ajuda e apoia, que tem tempo para me ouvir, para conversar, sabe muito bem lidar com as pessoas, mas nunca mais regressa para junto de mim.”

A sua memória está pontuada de nomes e geografias, de avós, de pais, familiares, amigos, de terras como a Soalheira, Fundão, Castelo Branco, Alpedrinha, Covilhã, Lisboa, Estados Unidos da América, Canadá… de quintas agrícolas, cansada de tanto servir e de tanto trabalhar.

Grande parte dos familiares e amigos já partiu, os que restam estão em lares, casas de repouso, locais onde tristemente se espera a morte, lugares sempre à espera de mais uma vaga, porque à porta está presente uma longa lista de pedidos.

Diz-me que ainda tem forças para andar, para estar de pé, para estar junto à janela, para receber as visitas diárias das funcionárias da Santa Casa da Misericórdia, sempre numa correria porque os utentes são muitos e as horas escasseiam.

Não quer, nem pensa em ir para lares, porque aqui, mesmo assim, tem a sua liberdade, vivendo alguma felicidade apesar de estar só.

Enquanto lhe for possível, recusa-se a ficar enclausurada em “caixas fechadas”, muitas vezes fornecedoras de aborrecimentos, de outras solidões que enfraquecem vivências e emoções.  

Todos já vivemos e sentimos que na sociedade actual é difícil encontrar melhores alternativas. A vida é um caminho, um jogo, uma corrida por pontos em que muitas vezes se ganha e outras se perde. Quando se perde muitos pontos a única solução é sair do jogo. Talvez aqui comece uma das maiores violências que a modernidade impõe, por não recriar novas formas de relações, novas formas de viver, novas formas de reconhecer os idosos.

Muitas vezes a velhice é um filme de terror que diariamente alonga a metragem.

Ao entrar na sua morada, vemo-la rodeada de muitos santos e santas, mas não lhe falam nem a ouvem… Só imagens mudas e quedas nos espaços vazios…

No hall encontra-se a imagem destacável de Nossa Senhora de Fátima, com uma lamparina acesa, talvez por ser o mês de Maio. Por perto a imagem de Santo António, o santo casamenteiro: apesar de lhe ter feito novenas e promessas, nunca lhe arranjou um namorado, para que um dia casasse e pudesse ter família. Por esta razão o seu estado civil é de solteira e de boa rapariga.

Já tem muitos cabelos brancos, rugas na face, mãos calejadas, mas transposta dentro de si alegria de viver, transmitindo a sabedoria sempre surpreendente das universidades desconhecidas.

Está grata a Deus por estar viva… e eu dou-lhe graças por isso!

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Junho/2019

 

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