SOUTO DA CASA – ECOS DE UM FUNERAL

Vive-se a azáfama da colheita da azeitona na Cova da Beira, que dá um dos melhores azeites deste país. Valha-nos isto, pois não é fácil estar debaixo de um calor anormal para a época, sobretudo quando o processo não decorre com a fluidez desejada: às vezes o bate-palmas falha, a chuva aparece e as filas no Lagar Cooperativo são um sério teste à paciência.

Enquanto espero a minha vez, observo as folhas caídas do Outono e medito nos desaparecimentos de Maria do Carmo Serra do Barco (Covilhã) e de um familiar e amigo António Albano Marques Gonçalves, do Souto da Casa, dia 21 deste mês, Sábado.  

O funeral deste último acelerara-se para a tarde do mesmo dia e, desta feita, estava um frio de rachar os ossos a qualquer mortal. Chegado em cima da hora, já na Igreja Matriz repleta de fiéis, se entoavam-se os salmos: “ o Senhor é meu Pastor, nada me faltará”. Consegui um lugar junto ao velho confessionário, talvez sem funcionalidade, ao lado de um oráculo que despertou a minha atenção. Maria da Conceição Marques, diz “aquele é o local da Paixão de Cisto e aquelas imagens é um resto que resta das manifestações de fé, que todo o Povo do Souto da Casa fazia nas cerimónias quaresmais, as Endoenças, (procissões na quinta feira santa, uma com Cristo, que saía da Capela do Mártir ao encontro de sua Mãe e de S. João, o Apostolo Predileto, que vinham inseridos noutra procissão e o encontro sagrado acontecia na Capela de Senhora do Rosário. Também se realizava a procissão dos Penitentes. São imagens muito antigas, vestidas com veludo, que o casal Maria José de Lurdes e João Nicolau, adquiriu nos Estados Unidos e ofereceu. Foram confecionadas por Maria Amélia Castanheira. Hoje estas tradições de tanta religiosidade em Souto da Casa estão mortas. É uma pena.” Sinais dos tempos…No entanto, em tempos religioso-culturais, o poder local vai revivendo estes temas.

Aí, refugiadas, estão três maravilhosas imagens do nosso património religioso que ainda vai resistindo às intempéries.

Sem deixar de ouvir a liturgia fúnebre, concentrei-me nas mãos sofredoras do Cristo da Paixão, que carrega uma enorme cruz de madeira, talvez emprestada pelos castanheiros do Carvalhal. Como se não bastasse o peso da cruz, ainda lhe colocaram na cabeça uma grande coroa de espinhos.

Da figura de Cristo para o Nosso Homem, recordei a cruz da vida que o meu familiar e amigo aguentou na diáspora, e na convivência a bem dos outros. Quem for testemunha fiel, quem servir o próximo, quem trabalhar seriamente terá a recompensa eterna e o Nosso Homem estará no Reino dos Céus.  

Imaginei-o, a partir das imagens que observava, ao lado da Virgem de rosto maravilhoso, puro, imaculado, de uma serenidade dorida, as mãos entrelaçadas enquanto as tranças do encaracolado cabelo caem num manto de veludo azul.

Imaginei-o ao lado do Apóstolo S. João, um jovem altivo de cabeleira farta e rosto atento, coberto por um manto vermelho e uma batina sacerdotal.

Leram-se os Livros da Sabedoria e dos Evangelhos, com a participação ativa da autarca local, que assentam na mensagem, “vinde benditos do meu Pai, recebei a herança do Reino”, pois vivem na Misericórdia e no Amor.

Em duas filas com centenas de pessoas, vindas de Aldeia Nova do Cabo, Aldeia de Joanes, Freixial, Telhado, Lavacolhos, Fundão e de tantas outras freguesias, segui a caminho do Cemitério, ao som de cânticos de salmos pelo Padre José Luís Farinha. Louvável a postura de todos aqueles que participaram no funeral de António Albano Marques Gonçalves, guardando silêncio e respeito pela dor dos familiares e amigos. Uma atitude muito digna do Povo do Souto da Casa e de todos aqueles que partilharam a dor com os entes mais queridos do falecido. Como nos dias de hoje é caso raríssimo, aqui fica o registo.

À medida que nos aproximávamos do fim do cortejo, lamentei não voltar a ouvir a voz amiga e familiar deste Homem. Lembrei-me das suas saudações, seguidas de um convite amável para colher cerejas nas suas pequenas quintas no local das Alminhas e do Senhor da Saúde. Para já, transcrevo, algumas palavras de uma sua familiar, lidas no final da eucaristia: “ foi um pilar na nossa família, sempre pronto a ajudar, nunca mais o iremos esquecer.”

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Novembro/2015

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