UM BARBEIRO DAS MINAS DA PANASQUEIRA

Mal entramos na sua Barbearia, junto à Praça de Táxis de Tortosendo, ficamos a saber que o dono da casa trabalhou nas Minas da Panasqueira. Nas paredes vemos fotografias de paisagens das Minas e dos mineiros; um relógio feito pelo próprio (as pedras do minério sinalizam as horas); um gasómetro; e um quadro com pedras de volframite, quartzo, pirites, nica branca, galena, marcassite, cassiterite, siderite, apatite…Também não é fácil adivinhar que o clube do coração deste Homem é o Benfica, pois uma águia sobrevoa todos os minérios. No entanto, mostra afeto pelo Sporting da Covilhã e pelos seus ídolos de há cinquenta anos.

Depressa nos diz que um cliente é um amigo e não um número, e por isso deve ser sempre recebido com simpatia e profissionalismo. Uma máxima que até em algumas Paróquias deviam ter em atenção. O nosso Barbeiro sem ter cursos superiores ou teológicos, sabe muito…

Estamos, pois, numa Barbearia acolhedora, um espaço recuperado onde o estilo antigo se conjuga muito bem com o moderno. Há uma simbiose perfeita, com um olhar para o passado expresso na vitrina da barbearia, onde encontramos diversos objetos da arte de bem barbear. Aí estão expostos como peças de Museu.

Nasceu na Bendada (Sabugal) há quase oito décadas, filho de Alfredo Augusto Dinis, um ex-combatente da I Grande Guerra. Conta que estava nas trincheiras das Flandes (França) quando num raide das tropas alemãs foi gravemente ferido e o comandante morto. Os ferimentos obrigaram-no a uma recuperação de um ano. À Bendada chegou a notícia do seu falecimento, mulher e familiares vestiram luto, tocaram os sinos sons fúnebres e ainda chegaram a celebrar missas pela sua alma.

Um dia apareceu na sua aldeia natal, o morto vivo, o romeiro, o militar, a quem já tinham encomendado a alma, já estaria no paraíso, porque o inferno teve-o na guerra.

Com cinco filhos para alimentar e educar, sem proveitos numa agricultura familiar de sobrevivência, o pai encoraja-se e seguiu para as Minas da Panasqueira. Ao fim de um ano, em 1946, fixaram residência no coito mineiro, onde a administração inglesa lhes deu casa, luz e água. A mãe dedicava-se à administração da casa e da costura, o marido foi para o interior da mina.

Um dos seus filhos, o nosso Homem Virgílio Dinis, fez a quarta classe e, em 1951, com apenas 14 anos, entrou para os Quadros da Beralt, através do Eng.º Wilson. Foi varrer as ruas do Bairro: ”naquele tempo era varredor, hoje seria técnico de limpeza.” Havia o Bairro dos Mineiros e o da Administração e Pessoal Técnico. Os melhores, os mais bem apresentados, iam prestar serviço a este último. Naquele tempo ganhava quarenta escudos. Além deste salário, sempre caiam umas gorjetas, umas gratificações, uns mimos, uns bolos.

Nas horas vagas, ia para uma Barbearia como aprendiz.

No final de um ano, foi para as correias escolher o minério, mas nunca deixou a aprendizagem de barbeiro. Não tardou a chegar às oficinas.

Aos 16 anos foi chamado a fazer provas de barbeiro, tendo sido selecionado para desempenhar a missão no Hospital dos Mineiros, e só assim conseguiu nunca entrar dentro da mina.

Durante oito anos ali exerceu a sua profissão. Um dos primeiros trabalhos foi fazer a barba a um sinistrado das minas: “Ninguém sabe o que me custou, o que senti dentro de mim, infelizmente muitos outros se seguiram”.

Naquele tempo havia muitos doentes com silicose. A sinistralidade era grande. Além de barbeiro, também era ajudante dos enfermeiros e várias vezes foi maqueiro: “Hoje talvez tirasse o curso de enfermeiro.” Ajudava também o Capelão dos Mineiros, talvez mais da Beralt, na sua missão pastoral.

Os mineiros sinistrados eram despojados das suas roupas, objetos (inclusive os gasómetros), material de trabalho, propriedade individual…que eram mais tarde entregues às suas famílias.

Fechamos este longo encontro, ao fim da tarde, numa Taberna do Tortosendo, onde molhamos postas de bacalhau frito em vários tintos da região. Hoje, festejaríamos o campeonato do Benfica.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Maio/2015

UM BARBEIRO DAS MINAS DA PANASQUEIRA

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