Um dia na capital

Na primeira semana de Agosto esteve agendada uma visita a Lisboa com o grande objetivo de visitar o Museu Nacional do Corpo Nacional de Escutas, sito na Rua Almirante Sarmento Rodrigues, na Zona da Picheleira. Dizem-nos que naquele território estavam planeados uns projetos urbanísticos para gentes com muita massa nos bancos. Não se concretizaram esses negócios de milhões e foram construídos “ muitos caixotes “ para albergar muitas famílias com grandes problemas sociais e económicos.

Uma das placas sinaléticas aponta a Casa do Escuteiro e nas mesmas instalações temos o Museu. Recebe-nos um velho escuteiro – Francisco Maia -, a aguardar uma delegação de Escuteiros Angolanos, que ali dispõe de óptimas condições de habitabilidade. Encaminha-nos para o Diretor do Museu – Jorge Câmara de Jesus -, nosso cicerone e companheiro de visita.

Num extenso rés-do-chão projectou-se um espaço onde estão expostas milhentas peças e documentos do movimento escutista português. Nas diversas vitrinas há um valioso espólio de documentos, relatórios, materiais, fivelas, insígnias, lenços, ofertas de delegações estrangeiras, documentação dos escuteiros marítimos e aéreos.

Entra-se na Sala de D. Manuel Vieira de Matos e vemos logo a primeira bandeira escutista, com a particularidade de a Cruz de Cristo ultrapassar em tamanho a Flor de Liz. Mais tarde foi retificada esta emblemática. Contém a documentão histórica da fundação do Escutismo em Portugal, quadros pintados de todos os Chefes Nacionais desde o primeiro, D. José Maria de Queiroz Lencastre, ao último Carlos Alberto Pereira.

Vemos expostas algumas das condecorações mais importantes, a de Ordem de Mérito e a da Ordem do Infante D. Henrique, o certificado de inscrição do CNE no Bureau Mundial do Escutismo e o documento de Pessoa de Utilidade Pública.

Há uma Biblioteca com diversos livros em várias línguas, onde não falta o Boletim Balafon – Boletim dos Escutas e Ex – Escutas em serviço militar na Guiné-, com temática escutista, e uma sala com diversa documentação das Juntas Regionais. À saída encontramos um átrio com uma vitrina dos Jamborees Mundiais e da Fraternidade, assim como fotografias da entrega da Chama do Centenário, numa delas figura o meu irmão e Dirigente Escutista Francisco Alves Monteiro. Acabamos de concretizar o desejo de visitar o Museu Nacional do Corpo Nacional de Escutas de Portugal, guiados pelo saber e simpatia do Chefe Jorge Câmara de Jesus.

Ao sair deste Museu deparamo-nos com o Cemitério do Alto de S. João, que nos abraçou com uma brisa quente, triste e dolorosa. O vento trazia já os ecos da despedida de um grande HOMEM, Mário Moniz Pereira, o pai do Atletismo Português. Graças à sua competência, à disciplina, ao cumprimento rígido de horários nos treinos, à motivação transmitida aos atletas, de ética e de valores, conseguiu colocar o Atletismo Nacional na esfera Mundial.

Ainda há tempo, apesar das muitas obras espalhadas pela capital (é o Zé a pagá-las!), que tornam o trânsito quase impossível, de passar pela Feira da Ladra, para uns a lembrar um “grande hipermercado de ladrões”, para outros um “mini preço do lixo”. A este propósito é interessante a carta que o advogado Rocha Pereira escreveu no Jornal do Fundão. Numa “Carta Aberta a Arguidos Talentosos” lemos o seguinte: “tendes pela natureza do talento o direito à Justiça dos direitos, lutai por banir os deveres que vos tolhem, e tornai-vos timoneiros dos já numerosos adeptos que cada vez mais almejam uma sociedade de direitos sem deveres. Arguidos Talentosos de todo o mundo uni-vos e a justiça será vossa.” Como dizia o saudoso jornalista Fernando Pessa, “ e esta hein!”

Ainda se passa pela Igreja da Graça, o seu Miradouro de onde se avista a baixa pombalina, entra-se na Vila Sousa onde se encontra o Pátio das Cantigas e o celebre Candeeiro o interlocutor do Vasco Santana. Ao lado o Bar Histórico – O Botequim da Graça -, onde se realizaram tertúlias literárias, politicas e sociais, com a grande protagonista Natália Correia. Sentei-me nas cadeiras e mesas de madeira daquela época, sob o olhar atento de um quadro que ilustra aquela grande escritora, politica e poetisa, a fumar a sua boquilha. Fernando Dacosta no livro Botequim da Liberdade, descreve muitas vivências das tertúlias ali realizadas.

Sobe-se para o Castelo de S. Jorge e entrámos numa Torre de Babel, com inúmeros turistas a falar diversas línguas. Chegam às levadas nos Tuk-Tuk, depois de se passearem pelas colinas lisboetas, de perfilarem em longas filas para comprar pastéis de Belém. São eles que enchem as ruas da Capital, as boas notícias económicas destes tempos, num país que continua uma desgraça e a arder.

Já era tarde quando regressámos à Cova da Beira, onde assistimos às obras nas saídas e entradas nos Túneis da Gardunha. Afinal não havia só obras incomodativas em Lisboa…

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Agosto/2016

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