UM HOMEM AMARGURADO…

A História é fácil de contar. Uma viúva rica, ainda as há, viu partir para a eternidade o companheiro de longos anos, com quem foi muito feliz. Ficou só, sem um único amparo humano, embora com muitos valores materiais. Tem uma filha professora, mas há anos teve de emigrar. Falou-se de envolvimentos inconvenientes em matéria amorosa, e nunca mais voltou ao convívio dos pais.

Embora a viúva tivesse uma casa recheada de tudo o que era bom e rico, não se sentia aí feliz, acorriam-lhe à mente as imagens das vivências com o marido, era um tormento. Dado que dispunha de uma segunda habitação, rapidamente para lá se mudou.

Sozinha e abandonada, depressa foi canalizada para uma dessas seitas religiosas que fazem milagres a torto e a direito, mas cedo se apercebeu que as palavras de carinho que recebia lhe ficavam caras…

Contactou um vizinho, confiou-lhe todo o recheio do andar (excepto as recordações do marido), e pediu-lhe para efectuar todas as diligências, de modo a alugar a casa a um inquilino sério.

O vizinho, homem sabido, 60 anos de “curriculum vitae” com vasta experiência, meteu mãos à obra. Além do recheio da casa, tudo o que aparecesse extra seria sua pertença. Na seleção do mobiliário, um para venda, outro para proveito próprio, descobriu um tesouro, escondido na parede do quarto de dormir, onde uma cómoda e um roupeiro disfarçavam a sua existência. Por misteriosas razões, que só os leitores de policiais poderão explicar, não o levou logo para a sua casa, deixando a tarefa para o dia seguinte.

No dia seguinte, o putativo inquilino e o comprador do mobiliário usado chegaram quase ao mesmo tempo ao andar da viúva. O comprador do mobiliário ia analisando o mobiliário a comprar, quando, neste exercício profissional, descobriu um tesouro e já não lhe tirou os olhos, aguardando a primeira oportunidade para o colocar na sua viatura, sem deixar rasto. O esquema foi bem organizado: enquanto o vizinho da viúva mostrava o andar ao putativo inquilino, o comprador do mobiliário voava com o tesouro embrulhado numa manta.

Alertado pelo companheiro, “ ele leva lá molho, ele leva lá molho”, o vizinho ficou paralisado de pernas e voz, não conseguindo agir. Há horas do diabo ou, como diz o provérbio popular, “o diabo onde não vai, manda”. A sua atitude passiva é inexplicável, devia estar noutra realidade.

Assim começa a desgraça do nosso Homem Amargurado: “ai eu podia estar rico, ai perdi o melhor, roubaram o tesouro, ai meu rico dinheirinho”.

A revolta deu lugar à introspecção, o Homem Amargurado olhou para o seu passado, tantos anos de luta pela vida… e para quê?

Abandonada a Beira Baixa, começou a trabalhar aos doze anos numa fábrica de pregos em Alhandra. Aos catorze anos, trabalhou num talho no Rato e aos vinte anos já estava nos CTT., de onde se reformou. No serviço militar chegou a cabo sapador e tirou o curso na EPE (Escola Prática de Engenharia). Aí teve a habilidade de ir até ao Entroncamento com galões de capitão para engatar garotas e nunca foi apanhado pela PM (Polícia Militar). Na Guerra do Ultramar, dava um passeio noturno até à tabanca, diante do Batalhão de Engenharia, e apesar de estar de prevenção saia sem autorização, afinal um homem não é de pau… O Comandante, beirão como ele, lá o safou de mais uma peripécia.

O Homem Amargurado invocava todas estas memórias e não encontrava na sua vida uma explicação para deixar fugir o tesouro. Porque não ordenou parar o ladrão?

Hoje encontro o Homem Amargurado, chora “ baba e ranho”, salta, tenta explicar, exalta-se. Como ninguém o compreende, grita, ameaça, não dorme ou tem pesadelos com ladrões e salteadores, sempre a mesma pergunta retórica: ”como foi possível perder esta fortuna? Como foi possível…” Diz-me que o usurpador do tesouro já comprou carros de alta cilindrada e garagens, anda aperaltado e mulheres não lhe faltam. Teve o pássaro na mão e deixou-o fugir.

O Homem Amargurado perdeu o tesouro, continuará a ser pobre com a parca reforma dos correios.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Julho/2015

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