UM MISSIONÁRIO JORNALISTA E PROFESSOR

A conversa, por motivo de obras no Seminário do Verbo Divino em Fátima, decorreu no Steyler Fátima Hotel, nome relacionado com a cidade holandesa onde foi fundada a Congregação do Verbo Divino.

José de Jesus Amaro nasceu numa anexa de São Vicente da Beira, chamada Violeiro, aldeia pequena e com a particularidade de uma parte pertencer à freguesia de Almaceda e a outra à Freguesia de São Vicente da Beira. O nosso missionário, jornalista e professor pertence a Almaceda, freguesia do concelho e distrito de Castelo Branco, mesmo no coração da “nossa” Beira Baixa.

A prole familiar é composta de quatro irmãos e uma irmã. O progenitor, Álvaro Amaro, foi um serrador de madeiras, antes da chegada da mecanização, e a mãe, tecedeira, cozinheira, trabalhadora rural e cuidadora do lar. O missionário diz-me: “a minha mãe não sabe ler nem escrever, mas é muito inteligente. Tenho muito orgulho nela.”

Mal fez o exame da 4ªclasse ingressou no Seminário do Verbo Divino em Fátima, onde além de estudar também trabalhou num secretariado que tinha como objectivo a angariação de fundos para fazer frente aos gastos do seminário. Depois dedicou-se exclusivamente ao estudo fazendo o curso normal dos liceus e prestando provas de exame no Liceu Nacional de Leiria. Concluído o sétimo ano, fez o noviciado em Fátima juntamente com mais quatro colegas, dos quais um foi ordenado sacerdote.

A etapa a seguir decorreu em Lisboa a estudar teologia. Durante cinco anos estudou na Universidade Católica Portuguesa. Terminada esta etapa fez os votos perpétuos na sua Congregação, seguindo depois a sua caminhada missionária além Oceano Atlântico, no Brasil, no Estado de Minas Gerais, mais concretamente na cidade de Belo Horizonte. A opção pelo Brasil, confessa, deveu-se, em parte, ao filme Pixote, de Hector Babenco. Filme que aborda a problemática das crianças que vivem na rua nas grandes cidades brasileiras e que o impressionou muito.

Na altura, uma das regras da Congregação do Verbo Divino era que só no final de cinco anos os missionários poderiam vir visitar as suas famílias. Depois o estatuto foi alterado para uma maior flexibilidade.

O nosso missionário trabalhou, durante cinco anos, com os meninos de rua numa Instituição –  Casa do Homem de Nazaré – fundada pelo padre holandês Cornélio Kila que, na sua opinião, “tinha um coração do tamanho do mundo. Era uma pessoa extremamente bondosa”, acentua.

Para evitar o perigo da massificação, a instituição apenas dava apoio a umas dezenas de crianças. Mas, com o passar dos anos, foram já muitas centenas que por ela passaram. Entram ainda pequenas e saem por volta dos dezoito anos, indo à procura do seu futuro com a base escolar e humana que foi possível adquirir.

Hoje, como ontem, sobretudo nas grandes cidades brasileiras, continuam a viver muitas crianças na rua. Ainda há uma grande obra para realizar.

Os superiores da Congregação perguntam-lhe se não quer estudar mais. Diz que sim e vem para Portugal estudar Jornalismo, frequentando para tal a Escola Superior de Jornalismo do Porto, onde obtém a licenciatura ao fim de quatro anos. Trabalhou depois no Jornal de Notícias do Porto, durante alguns anos, na delegação de Guimarães.

De seguida, fez na Universidade do Minho uma pós-graduação em Ciências da Comunicação. Foi uma “uma experiência fascinante”, diz, que lhe abriu outros caminhos para estar no meio das  pessoas.

Em 2001 regressa às origens conventuais, em Fátima, e aí, durante dezasseis anos, exerce a missão/profissão de professor no Centro de Estudos de Fátima na área de Educação Moral e Religiosa Católica.

Fala-me da experiência docente e esclarece que hoje o ensino é muito complicado devido ás perspectivas abertas pelas novas tecnologias e aos novos valores destes tempos – rapidez, experimentação, desinteresse pelo aprofundamento de questões mais desafiadoras e outros.

O exercício do ensino e do jornalismo foi muito gratificante e enriquecedor em termos humanos e de conhecimento. “Com os alunos aprendi que a paciência é a primeira, a segunda e terceira das grandes virtudes. Paciência para ouvir, relativizar o que se vai ensinar, abstracção dos ruídos, desvalorizá-los nas circunstâncias e nos tempos, para ter uma boa relação com os alunos. Um jovem para ser educado tem de ser amado e não há volta a dar. E quem a bem não conseguir à força nunca lá chega. Na vida só precisamos de Deus, Pão e Ternura, quem conseguir investir seriamente neste trio, tem largas probabilidades de vir a ter uma vida feliz.”

Além do mais, foi também colaborador do Jornal do Fundão, durante a direcção de Fernando Paulouro, com a rúbrica quinzenal de nome Inter&ores.  Colabora no jornal Contacto SVD, desde a sua fundação, com diversos artigos e entrevistas e actualmente com a coluna Mãos Férteis nome “roubado” a um verso de Eugénio de Andrade.

José Amaro tem a LUZ da Beira Baixa no coração. “Na nossa BEIRA subimos a uma pedra e a luz e a claridade, únicas, permitem-nos descortinar um horizonte que caminha para o infinito… lá longe… muito longe. Infelizmente, essa luz está a apagar-se e a deixar uma escuridão mortiça, acentuada pela falta de pessoas e em consequência de uma coisa a que chamam desertificação. As razões são muitas e já não adianta lamentar o facto de termos a sobrevivência da nossa Beira Baixa a prazo. As vilas e as cidades ainda podem ter algum futuro, agora as anexas e freguesias estão com a morte decretada”, diz. Reconhece que há um trabalho sério das autarquias para valorizar os diversos espaços geográficos, mas que isso não vai impedir, infelizmente, o despovoamento e a desertificação.

Assim e no Ano Missionário de 2018-2019, José de Jesus Amaro, um beirão da charneca de Castelo Branco que a Gardunha acalenta, celebra mais de meio século dedicado à Missão.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Janeiro/2019

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