MENSAGEM

É o último dia do ano, domingo acinzentado, Serra da Gardunha escura, céu ameaçando a chuva que continua preguiçosa. Olhamos para esta Natureza sombria, árvores meio despidas, nuvens como castelos bombardeados, terras queimadas e secas. Indicadores suficientes para pensar que 2018 não será tão frutuoso como desejamos.

Acompanho as diversas mensagens de Natal que me chegam, centralizando as minhas atenções nas palavras de D. Manuel Felício, Bispo da Diocese Egitaniense, que o Semanário “O Amigo da Verdade” inseriu nas suas páginas.

A sua mensagem natalícia “puxa as orelhas” ao poder centralizador, que negligenciou de forma criminosa as populações vítimas dos incêndios de Junho e Outubro. Como neste país a  Memória arde tão bem como os eucaliptos, importa o testemunho deste Bispo, que fala de um assunto que conhece bem, pois viveu no terreno esta tragédia, não se acomodando ao sofá episcopal à espera do Arcanjo do Apocalipse.

Não só foi directo às pessoas desesperadas, como se inteirou dos prejuízos avultados e da incongruência nas indemnizações. Além de ser chocante ver pessoas a discutir quanto vale economicamente a perda de uma vida humana, não é menos asqueroso assistir a critérios absurdos que não atendem às circunstâncias pessoais de cada caso, na hora de minimizar o sofrimento. Por exemplo, uma família sem filhos que abandonou a casa há anos num determinado território ardido, vivendo agora no estrangeiro, recebe exactamente o mesmo que uma família numerosa cuja única casa ou terreno de subsistência ardeu.

O responsável pela Diocese da Guarda ergue a sua voz contra injustiças como esta e desperta-nos para um “Presépio” de proximidade que constitua o direito de todos. Desconfiando do “centralismo da administração pública” para resolver os graves problemas, apela às pessoas próximas e às instituições locais.

  1. Manuel refere, assim, a necessidade de apontar caminhos de recuperação a essas pessoas para retomarem a sua actividade, não bastando o dinheiro do Estado para apagar os fogos da consciência governamental (quando a têm e não se agarram à “eterna fatalidade”). Há que reorganizar tudo e abrir na floresta um verdadeiro trilho de esperança entre o Homem e a Natureza.

Se não queremos o país ainda mais desigual (até as chamas escolhem os que têm menos), com um interior mais pobre e desertificado, há que dar capacidades sociais e económicas às mais diversas instituições locais, para com mais meios e melhor conhecimento do terreno, salvarem o que ainda existe, juntamente com as pessoas no palco dos seus dramas.

Parabéns ao D. Manuel Felício pela sua tão importante Mensagem de Natal, dando sinais de uma Igreja viva, junto das comunidades. Que o fogo-de-artifício do Novo Ano não apague o fogo-de-mau-estado do ano passado.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Janeiro/2018

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