UMA MULHER DE CORAGEM

Nasceu na Beira Baixa de uma família que arrancava o sustento da terra, cavando, lavrando, semeando e colhendo com o suor do seu rosto. Era uma agricultura familiar, que se vai perdendo, com todos os seus valores culturais. Dava-nos de comer, mas também era uma fonte de partilha e factor de união.

Na sua aldeia natal fez a instrução primária e seguiram-se os estudos secundários na cidade sede do seu Concelho. Com esforço e dedicação conseguiu uma bolsa monetária que pagava os seus estudos e ainda ajudava os da irmã. Fez o décimo segundo ano com boas notas, arranjando trabalho como dactilógrafa numa Escola Secundária. Graças à sua competência e zelo profissional, depressa chegou a primeira oficial.

Enamorou-se de um jovem serralheiro e, como o amor é cego, casou-se. Os primeiros dias foram de mel, os restantes de fel.

O marido enveredou pelos caminhos de álcool e começou a exercer represálias, ofensas verbais e físicas, ameaças de morte, numa prática diária de violência doméstica.

Alertou a P.S.P., mas naqueles tempos a Mulher que apresentava queixas do marido ainda era alvo de humilhação, censura e chacota, e não se dava seguimento ao processo.

Um dia abriu uma carta do Tribunal, dirigida ao marido, que o obrigava a pagar uma multa. Como não foi paga no prazo devido, apareceram dois agentes policiais à porta para hipotecarem o automóvel.

Na sua residência choviam cartas de credores, a exigir pagamentos avultados por materiais fornecidos ao marido. Eram milhares de contos, ainda não tínhamos chegado aos euros.

A Mulher reflectiu e resolveu vender o andar. Com a receita pagaria a quem o marido devia. Tinha pedido um empréstimo à Caixa Geral de Depósitos. No acto da compra entregara algumas economias e muitas prestações de amortização acrescidas. Dirigiu-se à Agência da cidade e expôs a sua situação ao Gerente. Este recebeu-a desumanamente, respondendo-lhe secamente: “entregue as chaves. Com as verbas que já recebemos a Caixa Geral de Depósitos não vai perder dinheiro, bem pelo contrário.”

A Mulher, carregada de lágrimas e dívidas do marido, com duas filhas para sustentar e educar, dirigiu-se para a porta de saída. O Subgerente, que se encontrava perto e ouvira a conversa, chamou-a para o seu gabinete. Com a porta fechada aconselhou-a: “Não entregue as chaves a esta Instituição Bancária. A Senhora vai vender directamente a sua casa, sem intermediários gananciosos”.

A utente agradeceu este importante conselho e assim fez. Nos meses que antecederam a venda, uma alma solidária emprestou-lhe sem juros algum dinheiro. Rapidamente vendeu o andar situado num dos melhores locais da cidade. Pagou a todos os credores e ficou com algumas reservas.

Há mais de trinta anos divorciou-se do marido. Apesar do trabalho diário, matriculou-se na Universidade e tirou um Curso Superior numa grande cidade. Hoje é Técnica Superior de uma Instituição Pública. As suas duas filhas também são licenciadas e exercem as suas profissões, tudo graças aos sacrifícios da sua Mãe.

Muitas vezes converso com esta Mulher, às vezes até às lágrimas. Que alegria vê-la hoje com as suas filhas e netos depois de tudo o que passou.

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Março/2018

CORAGEM

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