UMA QUINTA – FEIRA SANTA DIFERENTE

 

Já cá estou em Lisboa há alguns dias, e hoje, quinta-feira Santa, tive a visita dos meus irmãos Francisco e João, bem como do meu amigo e irmão escuta António, mas Alçada.

O tempo convidava a um passeio e lá fomos os quatro deambulando pelas ruas da capital a cheirar o aroma marítimo misturado com o pó da poluição de tantos carros e, vejam lá, também de algumas obras.

Estando em tempo pascal, e querendo fazer a boa ação diária, tentei convencer o grupo a fazer uma visita à Obra de Santa Zita. Gostava de lhes oferecer um exemplar do meu livro “O nosso Homem” e, porque não, revisitar um local que sempre me agradou e me deu boas recordações.

A disposição era boa com gargalhadas e brincadeiras fazendo-me recordar os tempos de juventude.

Fomos andando até que, talvez por ainda estar debilitado, comecei a sentir os meus companheiros diferentes.

O meu olhar parou num dos meus irmãos e vi o cabelo que retornava, as rugas que se apagavam e as calças que se encurtavam. Pedi uns instantes e aproveitei uma montra para ver o meu reflexo. A princípio não me identificava mas acabei por me reconhecer mas como se voltasse anos atrás.

Assim do nada, de repente, todos tínhamos mirrado e rejuvenescido. Não deixou de ser um choque e senti uma súbita preocupação por associar o que via a prováveis alucinações.

– Olha lá quem és tu? – Pergunto a um dos “garotos” que me ladeava.

– Olha!!! Tás passado? Sou eu o “Druida”. Sentes bem “Asterix”?

Meto a mão na boca e sinto uns bigodes. O tremor do inesperado apodera-se de mim e encosto-me à parede, apoiando a cabeça no antebraço.

Pergunto os nomes aos restantes como se, de repente, estivesse a entrar no desconhecido.

Durante um tempo voltei a mim. Efetivamente não deixa de ser um pouco a realidade lisboeta. Andamos horas e quilómetros a fio e ninguém nos sorri ou nos cumprimenta.

– Então mano, sou eu o Obelix.

E o outro? Quem é?

Então, o outro é o Al Capone.

Fixo-o bem e não o reconheço. Baixinho, gordinho, com calções e uns óculos maiores que a própria cara. Parecia que tinha uma vontade louca de contar dinheiro.

Ao ver a sua figura acabo por rir. Aquele “ar” desencontrado e desengonçado nem espaço tinha para uma metralhadora. Só podia ser mesmo uma brincadeira.

Achei então que deveria entrar na “dança” e começo-me a sentir melhor.

Pergunto ao grupo qual era o destino?

– A Obra de Santa Zita, na Estrela! Não é isso que queres?

Sim, é verdade. A minha boa ação do dia!

Olho para as minhas mãos e vejo que não trago o livro. Na realidade ainda não estou totalmente recuperado. Ainda me vou esquecendo de algumas coisas.

Um dos companheiros sente a minha preocupação e menospreza esse facto. No fundo o importante era prosseguir a caminhada e chegar ao objetivo.

A minha momentânea falta de equilíbrio leva-nos a abraçar: um por todos, todos por um!

E assim prosseguimos a circunavegação em volta do Centro Comercial das Amoreiras.

Entretanto o Druida tem sede. Não da poção mágica, mas de uma “mini” bem fresquinha!

O Capone olhava, olhava e lamentava-se de já ter perdido o Norte. Ora por aqui, ora por ali, o facto é que a Casa de Santa Zita seria logo acolá, mas o facto é nunca mais aparecia.

O cansaço com a sede leva-nos quase à impaciência.

No meio de tanta rua, ruela e beco, lá ia vendo os rostos quase iguais dos, e das, lisboetas, que olhavam para a confraria dos quatro em plena brincadeira mas sem fazer grande algazarra. Um ou outro automobilista, lá apitava, porque os passeios não chegavam para tanta amizade.

Mas o que me entristecia era a falta da palavra amiga. Não há ninguém que me diga ”boa tarde”, “olá”, “então amigo, o que tem? Sente-se bem?”, como à nossa maneira beirã, como nas ruas das nossas aldeias.

Nalgumas ruelas ainda vi a roupa estendida à procura do sol que se escondia rapidamente, no meio de tanto casario, esperando ver uma moça que aproveitasse a tarde soalheira para matar a curiosidade alheia. Mas até nisso se nota uma diferença da nossa Beira. Mesmo onde se vê a pobreza, também se vê a nobreza, o asseio e o arrumo.

A brisa fresca do mar lá me ia reconfortando, no meio de tanto braço dado, fosse do Capone, do Obelix ou até mesmo do Druida, que não se calava com a sede.

Finalmente lá encontrámos uma esplanada. Estava quase vazia, preenchida apenas com a idade de alguns que iam o tempo deixando passar.

O Druida lá mata a sede, mas achei que deveríamos refletir um pouco e, porque não, aproveitar para preparar este texto. O certo é que não fazíamos a mínima ideia de onde estávamos e o importante era sentir cada instante que passava da melhor maneira.

Ideias caiam em rodopio. Ideias que queriam marcar esta história. Eu bem pretendia por ordem na mesa, mas a algazarra não parava.

A tentação acaba por apoderar-se de mim e agarro bruscamente numa das imperiais que queria deliciar.

Estava quase a tocar no copo quando oiço uma voz feminina ao longe:

– António, António, acorda homem!!! São horas!!! Vá lá que nos atrasamos…

De repente dei por mim deitado.

Uns instantes levam-me ao vazio.

– Então, despacha-te! Temos de ir apanhar o táxi para o tratamento.

É verdade! O tratamento. Já nem me lembrava.

E o pior de tudo é que ainda não foi desta que levei o livro á Casa de Santa Zita.

E como os cientistas, lá termino esta crónica conjunta, com votos de uma Santa Pascoa, mas prometendo entregar um livro de “O nosso Homem”, na casa de Santa Zita, em Lisboa, mal tenha disponibilidade.

António Alçada Batista e António Alves Fernandes, 2017 (Pascoa em Lisboa)

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