O Padre, Homem de Fé – Do Mistério ao Ministério
Simpósio do Clero
Fátima, 4 a 7 de Setembro de 2012

Senhores Bispos, Senhores padres e caros amigos,

Começo por dizer que me encontro numa estranha situação. Normalmente nós, os leigos, estamos sentados na assistência e um senhor Padre, de pé, no ambão, fala-nos. Hoje, inverteu-se o cenário e não sei bem se foi uma boa ideia, mesmo que tenham substituído o ambão por uma tribuna. Quero, no entanto, agradecer o convite e manifestar o imenso gosto que tenho em estar aqui convosco.
Há uns anos atrás, a primeira vez que vim a Fátima, cheguei à Casa das Dominicanas, acompanhada por uma Irmã e, como as Irmãs andam sempre em passo acelerado, fiquei um pouco para trás e entrei sozinha na casa. Uma senhora, que estava na recepção, olhou espantada, visivelmente reconheceu-me, e perguntou: o que é que faz aqui? Com um ar e um tom entre a interrogação e a ordem de me forçar a dar meia volta e sair. Hoje, lembrei-me disso e pergunto-me o que faço eu aqui, que tenho tão pouco para dizer e teria tanto a aprender com cada um dos senhores padres presentes. Nesse dia, salvou-me a Irmã Ana Maria que percebeu a situação e me veio buscar. Hoje, espero que me perdoem do pouco que tenho a dizer-lhes e compreendam que falo para uma Assembleia que não pode deixar ser intimidatória para uma leiga.
Abordarei dois temas: 1.º A Igreja numa sociedade liberal, plural e democrática; e, em 2.º lugar, a razão de ser de estar aqui hoje a falar-vos.
O papa Bento XVI convocou, como se sabe, o ano da Fé a partir do dia 11 de Outubro. A Fé tem sido uma questão desde sempre querida a Ratzinguer, particularmente no que diz respeito ao relacionamento entre fé e razão. Quando se propõe a Nova Envangelização e um ano da fé, numa sociedade livre, democrática e plural, não está certamente no pensamento de ninguém, imaginar a possibilidade de voltar atrás na história, ao tempo anterior ao iluminismo, ao positivismo, ao tempo em que, muitas vezes, na Europa confluíam o trono e o altar.
O ano da Fé e a nova envangelização decorrem, para nós, numa Europa cuja raiz e a identidade são sem dúvida cristãs, mas onde se deu, como em nenhum outro local, o choque entre ideologias filhas da revolução francesa e o catolicismo; e num tempo onde até da identidade e da raiz histórico-cultural da Europa se tenta apagar o cristianismo como aconteceu no projecto de preâmbulo da Constituição europeia, que talvez, por isso mesmo, tenha abortado.
No entanto, a fé e a razão pareciam questões resolvidas definitivamente, transformadas em dois campos diferentes, como se não se tocassem, e nada tivessem a ver uma com a outra. Depois de Galileu e de Darwin, e do avanço dramático das ideologias radicadas no humanismo ateu (como lhe chamou Ratzinger, servindo-se da obra notável do teólogo Jesuíta, Henri de Lubac), das quais Deus estava ausente – o comunismo e o nazismo -, parecia que a sociedade se dividia entre os incultos e os anticientíficos: os crentes, de um lado e os homens e mulheres confiantes na ciência e no progresso, por definição óbvia: ateus. Esta separação teve muitas consequências, como todos sabem, mas sublinharia apenas uma: o facto da mentalidade positivista deixar de ver o homem como dom do criador, mas, ao contrário, como salientou o Papa, como mero produto “que qualquer um pode fazer” e, também, evidentemente “desfazer” e, logo, uma sociedade incapaz de diferenciar o bem do mal.
Permitam, então, que vos diga que imaginar um ano da fé em que se recuse esse debate, em que se simule que esses dois campos não existem, é remeter a Igreja Católica para um ghetto, o ghetto dos que têm fé, desistindo de cristianização da sociedade. Digo cristianização deliberadamente, não por pensar que evangelizar seja fazer a Europa recuar para tempos passados de um Estado absoluto católico, mas a evangelização como objectivo, num Estado constitucional, democrático e plural, como é o nosso, inserido numa Europa, ela também democrática, plural e livre. Uma Europa de pessoas livres e iguais perante a lei, com direitos de optar e crer ou não crer em Deus e em que convivem diferentes religiões. Quebrar a barreira que separa nas sociedades ocidentais a fé da razão implica ter tempo, saber acolher e saber argumentar. A fé sem razão não passa de uma atitude piedosa a caminho quantas vezes do misticismo ou do fundamentalismo. Mas a fé de costas voltadas para a razão, para a ciência, não abre caminho para as elites e não foi esse, ao longo da história, a essência do catolicismo, bem pelo contrário. Ao contrário de outras religiões, como a judaica ou a mulçumana, cito Joseph Weiler, teólogo judeu.
Num texto notável, Martin Rhonheimer, teólogo do Opus Dei (…), escreve “o ethos interior da cultura política moderna, construída em torno dos direitos humanos e do Estado constitucional democrático, cresceu sobre um fundamento cristão (…) e, hoje, encontra novamente as suas próprias origens no reconhecimento da cultura política dos direitos humanos”.
Não é missão fácil, como se sabe e há dois séculos que a Igreja, particularmente a europeia, direi mesmo a ocidental, procura caminhos, saídas. O Concílio Vaticano II constituiu um importante contributo nesse sentido, como o são um conjunto notável de Encíclicas, ou o Catecismo da Igreja Católica. Não é missão fácil, repito, como os senhores sabem, e os leigos também o testemunham diariamente, não só pela redução dos crentes e das vocações, mas sobretudo porque desapareceu da praça pública qualquer debate sobre a questão religiosa. Sirvo-me do título de um livro que acabou de sair em Itália para retratar a situação e que se chama o Átrio sem Gentios. Sim, na Europa, os gentios parece que já nem vão ao Átrio sequer interrogar-se sobre o divino, o sentido da vida ou da existência ou não existência de Deus. Desapareceu do sistema escolar a filosofia, logo, forma-se gente incapaz do pensamento abstracto e tudo se resume à corrida do dia-a-dia e, quando se enfrenta a solidão e dor, as televisões sossegam-nos, com um simples “chamou-se o psicólogo” que, com ciência segura e umas pastilhas, resolvem todo e qualquer drama humano.
No entanto, a par dos importantes esforços da Igreja e, particularmente dos papas notáveis que teve do século XIX até ao presente, para colocar os debates fé e razão, bem como verdade, na liberdade, no centro da sua evangelização não pararam nunca as vozes, normalmente de simpáticos ateus anticlericais, explicando que o que a igreja necessita são aggionamentos, alguma agitação e propaganda, mais música, animação e eventos e, sobretudo, e os senhores padres sabem isto melhor que ninguém, não falar de Deus. Falar de caridade é tolerado a qualquer clérigo, falar de crise, de política, então uma palavra crítica da hierarquia, é sucesso garantido – mas nunca de Deus. Porque tal é insuportável para uma televisão ou jornal não confessional. E, no entanto, quando esta barreira é transposta e alguém fala de Cristo, ou de Deus, como nos faz semanalmente o Senhor D. Manuel Clemente na Renascença e na Ecclesia, faz um bem à alma, só idêntico ao bem ao corpo que nos faria um bom banho de mar, numa tarde quente, como a de hoje.
É, porém, uma evidência que quanto mais a Igreja se fechar sobre si própria, mais longínquas ficam as elites e mais exigente é a missão do sacerdote para o ser verdadeiramente. É uma evidência que o caminho da fé já quase não se faz pela tradição familiar, em casa. Mas a conversão faz-se, pela razão e porque um dia se tropeça, repito, tropeça em Deus. Deus que está ausente da realidade da vida de muitas famílias, para já não falar da escola e da sociedade. Deus de quem cada vez mais gente nunca ouviu falar e que confunde com uma memória passada de avós desactualizados e demodés. Deus que é fechado em igrejas onde muita gente nunca entrou, ou é título de jornais quando a ciência dá um passo e encontra novas formas de matéria, rapidamente baptizadas partículas de deus e, pouco depois, perante o absurdo, rebaptizadas de partículas de Higgs.
Como muitos sabem, a minha profissão é ser editora de livros e testemunho-vos um facto que me levanta muitas interrogações e que não pode deixar de ser visto como um retrato da sociedade portuguesa actual: há três anos, o livro mais vendido foi o “Segredo”, de auto-ajuda (assim chamado), que faz quem o ler feliz para a vida; o ano passado foi um exotérico, de um menino que foi ao céu e voltou; este ano, é um pornográfico, que está a trazer aos tops uma quantidade de outros idênticos. Em todos, há uma incomodidade, uma busca de segurança no futuro, uma evidente confusão entre prazer e felicidade. O Papa lembrou recentemente, numa frase de Cura d’Ars, “deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá adorar-se-ão os monstros”.
E, no entanto, todos os dias se compreende, que mais do que nunca a sociedade europeia precisa de Deus e de vos ouvir testemunhar a felicidade de encontrar a fé, não como consolo de vidas difíceis, mas com palavras que dêem sentido da vida e da existência do homem. Palavras de acolhimento, quando procuramos um sacerdote, ou entramos numa igreja.
Se alguma palavra gostaria aqui de vos trazer, de vos testemunhar, neste ano da Fé mas não sei dizê-la, recorro ao belíssimo poema de Jean d’Ormessom:

La foi ça ne m’etonne pas.
Ça n’est pas étonnant,
J’ éclate tellement dans ma création,
Dans le soleil et dans la lune et dans les étoiles.

Dans les astres du firmament
et dans les poissons de la mer.
Sur la face de la terre et sur la face des eaux,
Dans le vent qui souffle sur la mer
et dans le vent qui souffle dans la vallée.

Et dans l’homme,
Ma créature.

La charité, dit Dieu, ça ne m’étonne pas.
Ça n’est pas étonnant.
Ces pauvres créatures sont si malheureuses
qu’ à moins d’ avoir un coeur de pierre
comment n’ aurait-elles point de charité
les uns des autres.

Ce qui m’ étonne, dit Dieu, c’ est l’ espérance

Et je ne reviens pas.
Jean d’ Ormesson

Que o ano da Fé nos traga esperança. Esperança como virtude teologal e não sinónimo de optimismo bacoco de muitos políticos, ou, no dizer de Milan Kundera, “optimismo, o ópio dos parvos”.
Não, uma esperança na vida eterna, em Deus que é isso que mais que nunca a sociedade portuguesa precisa de ouvir. Como disse S. Pedro, “é preciso dar razões da nossa Esperança”.

Zita Seabra
Óbidos, 4 de Setembro de 2012

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