“Vinde comigo”
IIº Domingo do Tempo Comum

A missão de Jesus consiste em proclamar o Evangelho de Deus – a Boa Nova que Deus tem para comunicar aos homens. E a Boa Nova é esta: “Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo”. Depois do tempo de prolongada preparação do povo de Israel, chega o tempo oportuno e favorável em que Deus cumpre a sua promessa de salvação. É a esse tempo que alude Paulo na Carta aos Gálatas: “quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher …” (Gal 4,4). E do mesmo tempo fala ainda o autor da Carta aos Hebreus: “Nestes dias, que são os últimos, Deus falou-nos por meio do Filho (Hb 1,2). O tempo completa-se e torna-se perfeito, chega aos últimos dias e atinge a sua plenitude, quando o Filho de Deus se fez homem e a salvação de Deus acontece no âmago da história.
Precisamente por isso, “o Reino de Deus está próximo”. Com Jesus, o Reino de Deus já está realmente presente no mundo e efectivamente próximo dos homens. Jesus não é apenas o anunciador do Reino. Ele é, muito mais, o construtor do Reino de Deus no mundo dos homens. Por outras palavras, Jesus não se limita a tornar audível a Boa Nova da salvação de Deus. Ele realiza-a. Por isso mesmo, ela é verdadeiramente uma Boa Nova para os homens.
Como resposta à proposta do Reino, Jesus pede aos seus ouvintes: “: arrependei-vos e acreditai no Evangelho”. O homem é convidado, num primeiro momento, a confrontar a sua vida com “o Evangelho de Deus” e, depois, a renunciar a tudo o que o contradiz. Para chegar a este estado de alma, a esta decisão interior, o homem precisa de acreditar no Evangelho, ou seja, na Boa Nova do Reino, ou melhor, em Jesus. Só acreditando em Jesus, sentindo-O como a Boa Nova de Deus, o homem se arrependerá do mal que existe na sua vida e se converterá a Deus com todo o seu coração.
“Vinde comigo”. De imediato, Jesus chama os primeiros discípulos. Quer que eles O sigam e estejam com Ele desde o início, pois deseja formá-los ao longo de todo o tempo da sua missão. Os quatro pescadores do Mar da Galileia, interpelados por Jesus e atraídos por Ele, deixam tudo e seguem-n’O. Deixam os seus bens, a sua profissão e a sua família. Mais tarde, Jesus explicitará que o deixar tudo implica também o renunciar a si mesmo e o tomar a cruz todos os dias (Mc 8,34). Não basta o desprendimento dos bens e das pessoas. É fundamental a liberdade interior, a liberdade da mente e do coração.
Só assim, o discípulo dará a sua preferência a Jesus, confiará plenamente n’Ele, estará disposto a arriscar tudo por Ele e lhe consagrará totalmente a sua vida. Só com este despojamento, o discípulo procurará em primeiro lugar o Reino de Deus, colocando-se inteiramente ao seu serviço, consciente de que tudo o resto é secundário e virá por acréscimo (Mt 6,33). Só com esta liberdade, o discípulo conformará a sua vontade com a vontade de Deus e aceitará a missão que Ele lhe confiar.
“Vinde comigo”. Em cada tempo, também no nosso, Jesus continua a dirigir o mesmo convite. Ele continua a precisar de discípulos que O sigam e prolonguem a sua missão no hoje do mundo e da vida dos homens. Quem aceita este convite deve saber que o caminho do seguimento de Jesus continua a ser o de deixar tudo. Quem não estiver disposto a seguir por este caminho, não está em condições de continuar a missão de Jesus, proclamar o Evangelho de Deus, anunciar a Boa Nova do Reino. A missão perde toda a sua consistência, credibilidade e eficácia, quando o discípulo contradiz ou nega com a vida o que prega ou ensina.
Na verdade, se alguém, propõe Jesus como o Caminho dos homens, e ele segue por outro caminho, o caminho que lhe convém; se evidencia a simplicidade e a pobreza de Jesus, para suscitar o desprendimento e a partilha, mas ele tem o coração preso aos bens deste mundo e ostenta sinais evidentes de riqueza; se exorta as pessoas a imitarem Cristo no espírito de sacrifício e aceitação da cruz de cada dia, e ele segue pelo caminho do mais fácil ou desanima e desiste perante as dificuldades que encontra; se prega o perdão misericordioso de Deus e ele guarda ressentimento e não perdoa; esse mostra que ainda não renunciou a si mesmo nem está ao serviço do Reino de Deus. Esse, ainda que não tenha consciência disso, ”segue” Jesus para se servir d’Ele!

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