Ao concluir o Sermão da Montanha, no qual revela a vontade de Deus relativamente à vida e à história dos homens, Jesus sublinha que o verdadeiro discípulo deve assumi-la como norma de vida e pô-la em prática. Ao longo deste discurso, que temos vindo a escutar e a meditar nos últimos quatro domingos, Jesus apresenta o programa do Reino de Deus e o modo como o homem o deve acolher e empenhar-se na sua construção; propõe um novo entendimento da Lei de Deus e das práticas religiosas dos homens; concretiza como o homem se deve relacionar com Deus e como deve viver o amor ao próximo. Numa palavra, Jesus aponta o caminho que o homem deve percorrer para entrar no reino dos Céus.
Não basta escutar com agrado as palavras de Jesus e memorizar os seus ensinamentos. Também não é suficiente responder-lhe com belas e piedosas palavras. Ele não se deixa impressionar pelas palavras que saem apenas da boca do homem – palavras que não brotam do coração nem são confirmadas pela vida. Palavras sem verdade e sem consistência.
Jesus vai mais longe ao afirmar que, para entrar no reino de Deus, também não basta ter expulsado demónios e realizado milagres em seu nome! Pode acontecer que alguém, em razão da missão e dos dons recebidos de Deus, realize obras extraordinárias. Porém, tudo isso, se o faz sem o sentimento de fidelidade a Deus e de amor aos homens, de nada lhe aproveita. São Paulo ajuda-nos a compreender as palavras de Jesus, quando afirma: “Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou” (1Cor 13,2).
O discípulo de Jesus deve viver da Palavra e segundo a Palavra de Deus, ou seja, deve aceitar e viver em sintonia com a vontade de Deus. Por conseguinte, deve gravar as palavras de Deus no seu coração e na sua alma (Dt 11,18), assimilá-las ao ponto de passarem a fazer parte do seu ser e a inspirarem toda a sua vida. O discípulo é, pois, aquele que, seguindo Jesus e aprendendo com Ele, constrói a sua vida tendo sempre como ponto de partida e alicerce a sua Palavra.
Jesus usa a imagem da construção da casa sobre a rocha. Construir sobre a rocha é mais difícil, demora mais tempo e é mais dispendioso. Mas na hora da chuva, das torrentes e dos ventos fortes, quem construiu sobre a rocha constata que valeu a pena o esforço e o sacrifício, enquanto que aqueles que edificaram sobre a areia apercebem-se do seu engano.
Algo de semelhante acontece também em relação à nossa vida pessoal, bem como em relação à família e à sociedade. É mais fácil e, momentaneamente, mais atraente construir a nossa vida sem Deus, sem ter em conta a sua Palavra, sem respeitar os valores espirituais e os princípios morais do Evangelho. Porém, na hora das dificuldades e problemas, da doença e sofrimento, do fracasso e da morte, verificamos que a nossa resistência e a nossa capacidade para enfrentarmos e resolvermos tudo isso é muito mais limitada ou mesmo inexistente. E, então, deitamos tudo a perder. A nossa vida desmorona-se por completo.
Mas se o alicerce da nossa vida é a palavra e o amor de Deus, não só temos um outro modo de ver e encarar os problemas e os obstáculos da vida, como temos uma luz e uma força especiais para os superarmos e vencermos.
Nós, os cristãos, que escutamos, tantas vezes, a palavra de Deus, gravemo-la no nosso coração e façamos dela a alma da nossa vida. Seguir a palavra de Deus é fonte de bênção, como nos lembra a primeira leitura.
A palavra de Deus não só nos indica o caminho da vida como nos dá a força para o percorrer; não só nos aponta a meta como nos conduz até ela; não só nos revela Deus como suscita em nós o desejo irresistível de vivermos com Ele para sempre.
Não esqueçamos que Jesus só conhece e só acolhe no reino dos Céus aqueles que fazem a vontade do Pai que está nos Céus, ou seja, aqueles que vivem segundo o espírito e a novidade do Sermão da Montanha!

Pe. José Manuel Martins de Almeida

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