XUTOS & PONTAPÉS

Estávamos na quadra natalícia nos finais da década de setenta do século passado.

O meu saudoso Pai, operário da Socel em Setúbal, aposentara-se com mais de 85 anos de actividade profissional. A fábrica laborava permanentemente e o meu Pai só conhecia as “mil e uma noites” operárias, várias vezes trabalhando na Noite de Natal e no dia do Nascimento do Menino. A empresa oferecia a Ceia de Natal e pagava a dobrar, o que dava um jeitão para alimentar as dez bocas que o esperavam, “hospedadas” numa das dependências, sem grandes condições, da Capela de Santo António, que servia de Casa Mortuária.

Um dia, já nos anos 80 do século passado, recebi um telefonema do meu grande amigo Paulos e Cruz, à época Director do Estabelecimento Prisional de Setúbal, a convidar-me para a festa de Natal dos reclusos com um cartaz encabeçado pelos Xutos & Pontapés. A instituição prisional nunca me fora estranha pois desde jovem ajudara o Capelão Prisional – Padre Horácio, natural de Cabo Verde – ligado à Congregação de António Maria Claret, que a viver nestes tempos estaria a lutar pela independência da Catalunha.

Quando cheguei à “cadeia”, com o meu filho Paulo adolescente, já muitas visitas oficiais se encontravam presentes, enquanto a banda de música afinava os instrumentos para iniciar o concerto.

Durante duas horas estivemos em êxtase com a música que nos chegava, convivendo com os reclusos animadíssimos por esta extraordinária prenda de Natal. Para quem desempenhou a função de Director como uma Missão (o meu caso e o de Paulos e Cruz), não há maior alegria que ver os reclusos satisfeitos. E naquela noite nenhum recluso precisou de comprimidos para dormir.

Os Serviços Prisionais organizavam vários concursos musicais. Lembro-me, anos depois, no dia 1 de Outubro, de Castelo Branco ganhar o primeiro prémio, atribuído por um júri nacional. O premiado foi um conjunto de etnia cigana. Como responsável pela “Casa de Reclusão” e grande admirador da música cigana, felicitei o cantor com um grande abraço e ainda hoje recordo as suas palavras: “Ó Senhor Diretor, quando cantamos é o nosso coração a chorar”. Fiquei emocionado e sem palavras…

Findo o espectáculo dos “Xutos”, seguiu-se um lanche onde não faltou o bolo-rei e outros petiscos comestíveis. Foi a minha oportunidade para conversar com os elementos da banda rock, pessoas absolutamente maravilhosas que não estavam ali pelo “vil metal” e já tinham distribuído gratuitamente a sua generosidade musical por vários Lares ou Recintos Escolares, em concertos de solidariedade social com grande espírito Natalício. Lembro-me, em particular, do Zé Pedro guitarrista, alguém que irradiava simpatia e transmitia energia e vontade de viver ao fim de pouco tempo com ele.

Quando estava internado em Coimbra, a sua música chegou-me pelo rádio e deu-me força para continuar a lutar pela vida.

Hoje quero agradecer ao Zé Pedro, guerreiro da alegria, por ter iluminado as celas prisionais e o meu quarto de hospital.

PARA SEMPRE!

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Dezembro/2017

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