XV – Domingo Comum

“Vai e faz o mesmo”

 

            No amor a Deus e no amor ao próximo – amor vivido com todo o coração, com toda a alma, com todas as forças e com todo o entendimento, radica a salvação do homem, a garantia da vida eterna. O escriba conhece bem a resposta, sabe o que está escrito na lei. Ele até a ensina ao povo. Mas não basta saber e ensinar. É necessário cumprir: “Faz isso e viverás”. Ama, ama no concreto da tua vida, faz-te próximo de quem precisa de ti. Então, Deus sentir-se-á amado por ti e partilhará contigo a vida eterna.

            Para esclarecer o escriba sobre quem é o seu próximo e como o deve amar, Jesus conta uma parábola:  

            Um homem despojado dos seus bens, espancado, abandonado meio morto, está sozinho à beira do caminho. Impotente para procurar ajuda, a sua sobrevivência dependerá exclusivamente de quem passe por aquele caminho e tenha ou não um coração capaz de amar. A sua vida depende do amor de alguém. Meio morto, silencioso, ele interpela e reclama, sem poder exigir, a ajuda dos viajantes.

            Os salteadores roubaram (não respeitaram os bens), espancaram (não respeitaram a integridade física), abandonaram-no meio morto (não respeitaram a vida). O interesse pelos bens chega ao extremo de não respeitarem a vida! Abandonaram-no…Demorará muito tempo até que passe alguém? Passará alguém disposto a socorre-lo? Que lhe irá acontecer? Conseguirá sobreviver?

             Os primeiros a passar e a ver aquele homem foram dois funcionários do culto do templo de Jerusalém: um sacerdote e um levita. Também eles desciam de Jerusalém e regressavam a suas casas após uma semana de serviço no templo. Durante toda esta semana, tinham servido o culto no cumprimento escrupuloso da lei. Convencidos de terem cumprido o seu dever e de terem agradado a Deus, voltam para as suas famílias.

            No entanto, ao verem aquele homem caído à beira do caminho, eles, que vinham de prestar culto a Deus, passaram para o outro lado e seguiram a sua viagem. Um culto sem implicações na vida, uma religião que põe as leis e as tradições dos homens à frente da pessoa humana, são um culto e uma religião que mantêm as pessoas afastadas do verdadeiro Deus. Uma religião que não nos torna sensíveis e compassivos diante da sorte do nosso semelhante, é uma religião que não presta, não serve o homem nem glorifica o verdadeiro Deus.

            O samaritano é um homem com sensibilidade e sentimentos. O homem abandonado desperta nele sentimentos de compaixão que se traduzem numa série de acções que visam salvar a sua vida. Esquece, por algum tempo, a sua viagem, os seus negócios, a sua vida. Naquele momento e naquelas circunstâncias, o mais importante e o que concentra toda a sua atenção é aquele homem que é preciso salvar.

            Há um movimento de aproximação: chegou ao pé dele…aproximou-se…O amor leva à acção. No próprio local, presta-lhe os primeiros socorros: ”ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho”. Era o que estava ao seu alcance, o que naquela hora lhe podia fazer. Mas não fica por aqui. Compreende que aquele homem precisa de mais e melhores cuidados. Por isso mesmo, levou-o para uma estalagem, transportando-o na sua montada.

            Ele, o samaritano, sabia e ensina-nos que o amor ao próximo não pode limitar-se a uma acção isolada, mas deve levar-nos a fazer tudo o que é possível e necessário. Nesse sentido, depois de ter dado dois denários ao estalajadeiro recomenda-lhe vivamente que trate bem dele, revelando-lhe a intenção de lhe pagar com justiça quando ali regressar!

            Quem ama não faz cálculos do que gasta amando. O samaritano podia ter pensado: ”eu já fiz a minha parte trazendo-o até aqui. Agora, o estalajadeiro, que também tem a obrigação de amar o próximo, que lhe preste gratuitamente o seu serviço”. Pelo contrário, decidiu pagar-lhe com justiça todos os seus serviços. O samaritano também podia ter deixado ao homem que, uma vez recuperada a saúde, assumisse o pagamento de todos os gastos. Porém, não foi isso que fez. Se o amor está condicionado pelos deveres dos outros, não é verdadeiro amor.

            “Vai e faz o mesmo”. Farás o mesmo, amarás como o samaritano, se realmente acreditas na vida eterna. Sim, a esperança na vida eterna incentiva o homem a amar. Olhando para o prémio do amor e considerando o amor como o único caminho para chegar à plenitude do existir, o homem compreende que vale a pena amar sempre e a todos, apesar das exigências e renúncias que o amor comporta.

Pe. José Manuel Martins de Almeida 

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