XVII – Domingo Comum
“Mas que é isso para tanta gente?”

O relato do milagre da multiplicação dos pães, na versão de João, é inseparável do discurso que se lhe segue – o discurso do Pão do Céu (Jo 6,22-59). Ao narrar o milagre e ao transmitir o discurso de Jesus, o evangelista manifesta que tem bem vivos na sua memória e impressos no seu coração os acontecimentos da última Ceia e da instituição da Eucaristia. É com os olhos e o coração de quem viveu aquela singular experiência que João escreve o capítulo 6 do seu evangelho. Isto explica as diferenças que existem entre o seu e o texto dos evangelistas sinópticos (Mateus, Marcos e Lucas). Na verdade, João oferece-nos pormenores que apontam claramente para a Eucaristia.
Desde logo, João é o único a situar o milagre no contexto da Páscoa, “a festa dos judeus”. Ora, foi precisamente no âmbito das celebrações desta festa, mais concretamente durante a ceia pascal, que Jesus instituiu a Eucaristia. Depois, enquanto os outros evangelistas apresentam os apóstolos a distribuir o pão pelas pessoas, João diz-nos que foi Jesus, o que corresponde ao que fez durante a última Ceia. Finalmente, a ordem de recolherem os pedaços que sobraram, “para que nada se perca”. Por um lado, a abundância do pão e, por outro, a preocupação e cuidado de Jesus com o pão que sobrou fazem-nos lembrar o pão da Eucaristia. Um pão que chega para todos e que, por ser tão valioso e tão necessário para os homens, deve ser guardado e dado a todos aqueles que vierem a acreditar e a sentir fome de Jesus.
“Mas que é isso para tanta gente?” Jesus vê a multidão que se aproxima, pressente que está faminta e decide alimentá-la. Embora tenha em mente realizar algo de extraordinário, “Ele bem sabia o que ia fazer”, não o quer fazer sozinho. Pelo contrário, quer precisar e envolver os homens, sobretudo os seus discípulos, na resolução deste problema. Quer que eles façam a sua parte, aquilo que está ao seu alcance, que contribuam com o que têm ao seu dispor.
Filipe fala de duzentos denários, uma importância que não é insignificante, mas manifestamente insuficiente. Por sua vez, André refere a existência de “cinco pães de cevada e dois peixes”, uma porção irrisória, quase nada. Porém, este pouco, partilhado por um rapazito, abençoado e distribuído por Jesus, transforma-se em muito, chega para todos e ainda sobra. O pouco do homem foi o ponto de partida necessário para Jesus realizar o milagre em favor de todos. Jesus quis precisar e aproveitar o pouco para fazer o muito, aquilo que os homens só por si não podiam fazer. Os milagres acontecem, os problemas dos homens resolvem-se, quando deixamos que Jesus se sirva do que nós temos e somos. Então, o impossível torna-se possível e acontece!
“Vendo que uma grande multidão …” Jesus, com muita frequência, compadece-se das multidões que O procuram e age em seu favor. No domingo passado, vimos que Jesus, olhando para as muitas pessoas que O seguiam e vendo “que eram como ovelhas sem pastor”, começou a ensiná-las, a fim de as iluminar e lhes mostrar o caminho da vida. Hoje, vemos como Jesus, também compadecido, lhes mata a fome.
No entanto, Jesus não se fia das multidões. Sabe que a maior parte das pessoas O procuram por interesse e não para acolherem o dom do Reino que tem para lhes comunicar. O evangelista começa por nos dizer que a multidão seguia Jesus “por ver os milagres que Ele realizava nos doentes”. Ao beneficiarem do milagre, mostram o seu entusiasmo e chegam a afirmar que Jesus é “o Profeta que estava para vir ao mundo”. No fim, Jesus teve de fugir, porque queriam aclamá-l’O rei. Queriam Jesus como rei, porque lhes agradava ter um rei que lhes garantisse o alimento de graça e sem trabalho. Não descobriram que Jesus tinha um pão melhor, um dom maior para lhes dar. Perderam o próprio Jesus, que desejava oferecer-se a eles como o pão da vida eterna.
Jesus retira-se sozinho, para o monte. Afasta-se desiludido com as pessoas. Procuram-n’O motivadas por interesses meramente humanos, sem qualquer abertura ao reino de Deus. No monte, em silêncio e oração, Jesus vai digerir mais este fracasso, vai desabafar com o Pai e fortalecer a sua comunhão com Ele, para retomar, depois, a sua missão. Na intimidade com o Pai, Jesus prepara o belo discurso com que vai responder à multidão, e que nós ouviremos e meditaremos nos próximos domingos.

Pe. José Manuel Martins de Almeida

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