“ Guardai-vos de toda a avareza”

 

             O evidente exagero do autor sagrado – “ tudo é vaidade”- põe em evidência a falta de consistência, a vacuidade e a inutilidade de muitos dos sonhos e projectos dos homens, bem como do seu trabalho e das suas preocupações. Faltando-lhe a perspectiva da vida e da recompensa para além da morte, e olhando para a brevidade da vida dos homens, Coelet conclui que o homem se ilude a si mesmo, afadigando-se a acumular riqueza que, depois, tem de deixar a quem nada fez por ela.

            O homem investe o seu tempo e as suas energias, as suas capacidades e os seus talentos, o homem tem de enfrentar tantos desafios e tantas dificuldades, tem de suportar tantas canseiras e tantas dores de cabeça por algo de tão efémero e tão enganador! O homem aumenta o que tem, mas não melhora o que é. E mesmo o que possui, não tem tempo para o gozar durante a vida, nem o pode levar consigo, quando morrer. Também isto é vaidade!

             Um homem queixa-se a Jesus e pede-lhe que intervenha em seu favor, porque o seu irmão se recusa a repartir com ele a herança paterna. A avareza cega e escraviza o homem, destruindo mesmo a harmonia familiar. A avareza cega o homem, na medida em que o impede de ver, reconhecer e respeitar os direitos dos outros. No seu afã de possuir, de ter mais, sempre mais e mais de que os outros, o homem perde o sentido da justiça e apropria-se dos bens que pertencem ou são devidos a outros.

            A avareza escraviza o próprio homem, pois este acaba por subordinar toda a sua vida à acumulação desmedida de bens materiais, renunciando aos princípios e valores morais. Vive em função do possuir e, por isso mesmo, desconhece a liberdade de amar e de partilhar.

            Através da parábola, Jesus confirma como o homem se engana quando se convence que a sua vida e a segurança da mesma dependem dos bens que possui. Aquele que possui muitos bens, que tem os celeiros ou os cofres cheios, também morre, e também morre quando menos pensa. Ainda que o homem se recuse a reconhecê-lo, a sua vida depende de Deus. É Deus, e não a riqueza, que dá valor e consistência à vida do homem.

            O homem rico convence-se que os seus muitos bens lhe podem garantir um futuro sem preocupações. Como se não precisasse de Deus nem das outras pessoas, decide gozar a vida sem quaisquer limites: “descansa, come, bebe, regala-te”. No materialismo e hedonismo da vida, o homem rico pensa encontrar a felicidade e pensa que essa felicidade pode durar enquanto durarem os seus bens.

            Aí reside a sua vaidade e ilusão. Quando menos espera, terá de entregar a sua alma. O homem pode viver como se Deus não existisse, mas nem por isso Deus deixa de existir! Apoiado na segurança da sua riqueza, o homem pode pensar que é o senhor absoluto da sua vida e que não tem de prestar contas a ninguém. Porém, Deus não deixa de ser o Senhor absoluto da vida do homem ao qual o homem tem de prestar contas. Afinal, mesmo que se convença do contrário, o homem tem de partir e deixar cá os seus bens! Mesmo que o não queira, o homem vai comparecer diante de Deus e ser julgado por Ele. E o homem deita tudo a perder quando pensa em usufruir sozinho a sua riqueza, em vez de, com ela, se tornar rico aos olhos de Deus.

            Jesus não está contra os bens deste mundo. Pelo contrário, eles são um bem e são necessários ao desenvolvimento e à realização da pessoa humana. Deus quer que os homens produzam riqueza. Contudo, segundo os desígnios e a justiça de Deus, essa riqueza deve ser colocada ao serviço de todos e não pode ser ilegitimamente usurpada e retida por alguns.

            Desde a perspectiva de Deus, os bens materiais devem ser adquiridos com justiça e partilhados com amor. Só assim a riqueza cumpre a sua função no mundo dos homens e se evitam as desigualdades e os conflitos familiares e sociais. A partilha, o bem que fazemos com os bens que temos é que nos torna ricos aos olhos de Deus, e é o que dá legitimidade aos bens que possuímos. Esse é o investimento que será largamente recompensado por Deus.

            Aqueles que acumulam bens só pelo prazer de possuir ou para gozar egoisticamente a vida têm como recompensa uma alegria e um prazer efémeros. Aqueles que usam com sabedoria e dignidade os seus bens e os partilham com amor, esses terão como retorno os juros do amor generoso de Deus. Quem partilha com amor, participa eternamente da riqueza do amor de Deus!

Padre José Manuel Martins de Almeida 

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