“Saboreai e vede como o Senhor é bom”.

A Sabedoria prepara um extraordinário banquete e convida para ele os inexperientes e os insensatos (primeira leitura). Estes são os que procuram a felicidade à margem de Deus e dos seus princípios morais, vivendo ao sabor e ao ritmo dos instintos e paixões, e sem atenderem aos direitos e aos interesses do seu semelhante. Iludidos e sem se aperceberem do fim que os espera, em vez de construírem a sua felicidade, eles cavam a própria ruína e tornam-se responsáveis por muitos dos males que afectam a sociedade.
O que a Sabedoria se propõe, mais de que proporcionar-lhes uma refeição, é oferecer-se a si mesma, para que eles abandonem a sua insensatez e sigam o caminho da prudência. Na verdade, a Sabedoria confere, àqueles que a acolhem e se deixam instruir por ela, a arte de viver com sentido e com valor: gerir a vida no âmbito das exigências da sua dignidade; apreciar rectamente as coisas e usá-las segundo o fim que lhes é próprio; viver a relação com os outros no respeito pelos direitos que lhes correspondem; aproveitar e investir as suas capacidades e talentos em projectos e ideais que visem e alcancem o bem e a felicidade de todos.
Mas quem é esta Sabedoria? Jesus é a verdadeira Sabedoria de Deus. Ele é a Sabedoria que, no princípio, criou o mundo e que, depois, na plenitude dos tempos, encarna e habita no mundo para o salvar (Cf Jo 1,2.14). Jesus prepara e oferece a toda a humanidade o verdadeiro Banquete da salvação. Neste Banquete, Jesus não oferece pão e vinho, mas oferece-se a si mesmo – a sua Palavra e a sua Vida. Ele é efectivamente o alimento da vida eterna. Com efeito, Jesus garante: “quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia”.
Ponto culminante deste comer e beber é a comunhão sacramental. Esta comunhão é autêntica e eficaz, quando nos leva a uma relação mais íntima e intensa com Deus e nos impele a um maior compromisso e empenho com os irmãos. Sim, a comunhão sacramental, se o é de verdade, fortalece a nossa comunhão com Deus e a nossa comunhão com os irmãos. Então, saboreamos e sentimos como o Senhor é bom!
“Saboreai e vede como o Senhor é bom”. Quando contemplo o mundo que Deus criou e ao considerar que Deus, ao criá-lo, também pensou em mim, eu saboreio e sinto como Deus é bom e é bom para comigo! Quando medito sobre a história da salvação, desde a promessa aos nossos primeiros pais até ao seu cumprimento em Jesus Cristo; ao descobrir até que ponto Deus amou o mundo e o homem, eu saboreio como Deus é bom e é bom para comigo!
Quando contemplo o que sou e descubro que Deus fez de mim quase um ser divino (Sl 8,6); ao tomar consciências das graças extraordinárias que Deus me tem concedido em momentos importantes e difíceis da minha vida e como, em todos os outros, me tem acompanhado e conduzido até ao presente, eu saboreio e sinto como Deus é bom para comigo! Quando medito na minha vocação e missão e considero que Deus quer precisar de mim, apesar dos meus defeitos e pecados, para amar e salvar os homens; que Ele confia em mim e me torna capaz de continuar a missão de seu Filho no hoje da história, eu saboreio a grandeza do seu amor e experimento como Ele é realmente bom para comigo!
Quando penso (e medito) que Deus me criou por puro amor, para eu O contemplar tal como Ele é e O usufruir plenamente como minha herança eterna, fico extasiado e confundido com a bondade deste Deus e com a loucura do seu amor por mim!
“Saboreai e vede como o Senhor é bom”. Mas estamos realmente interessados em fazer esta experiência? Permitimos a Jesus que nos mostre o rosto do Pai e nos revele os segredos do seu coração? Aceitamos o convite para a Ceia do Senhor e temos fé e apetite para tomar o alimento que nos é oferecido, ou seja, para comer/ comungar o Senhor da vida, o Pão da vida eterna? Disponibilizamos tempo e fazemos silêncio interior para captar a presença e a acção de Deus na nossa vida e, assim, podermos saborear e ver como Ele é bom para connosco?
É o olhar da fé, o olhar contemplativo, o ver com o coração e com a alma que nos torna sábios. O sábio é aquele que procura viver segundo a vontade de Deus, certo de que ninguém mais e melhor do que Deus deseja a sua felicidade e actua em seu favor. O sábio é capaz de discernir que o que é mais agradável nem sempre é o que mais lhe convém; que o que é mais vistoso (a fama e o prestígio) não é o que dá mais consistência e valor à sua vida; que o que dá mais prazer não é o que o torna mais feliz; que o mais fácil não é o que o faz chegar mais depressa à meta. O sábio sabe discernir o que é bom, o que é justo e o que é agradável a Deus.
O sábio, melhor do que ninguém, saboreia e sente como Deus é bom: como Deus é bom para com todos e como Deus é bom para consigo. O sábio sabe e sente que Deus é o bem supremo, o único bem que o preenche plenamente e, nessa medida, lhe permite atingir a plenitude da vida! Peçamos ao Espírito Santo que nos conceda o dom da sabedoria.

Pe. José Manuel Martins de Almeida

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