XXI – Domingo Comum
“Também vós quereis ir embora?”
Muitos dos ouvintes, incluídos alguns dos seus discípulos, não entendem e ficam escandalizados com o discurso de Jesus. Consideram as suas palavras demasiado duras, insuportáveis, humanamente incompreensíveis. Por isso, murmuram, discutem, duvidam, questionam: “Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?”
Jesus tinha afirmado que, para atingir a vida eterna, o homem tem de comer a sua carne e beber o seu sangue, ou seja, o seu corpo, o corpo que Ele vai oferecer na cruz pela vida (salvação) do mundo. O que Jesus diz é surpreendente, uma absoluta novidade, algo que ninguém podia imaginar vir a ouvir. Afirmar que a sua carne é uma verdadeira comida e o seu sangue uma verdadeira bebida, insistir em que Ele é o alimento que os homens devem tomar é algo que não pode deixar de provocar perplexidade e confusão.
Á primeira vista, até nos parece normal e compreensível que eles tenham ficado exaltados e pensado mal de Jesus. Porém, vendo bem as coisas, damos conta que eles tinham razões e obrigação de reagirem de um modo diferente. Com efeito, multiplicando os pães depois de ter dado graças, Jesus mostra que a sua palavra é eficaz e Deus está com Ele. O milagre confere plena credibilidade a Jesus e, consequentemente, deveria motivar os seus interlocutores a acreditar n’Ele e nos seus ensinamentos.
Depois, na primeira parte do discurso, Jesus apresenta-se como o pão da vida e assegura que quem acredita n’Ele fica saciado e “viverá eternamente”. Jesus é alimento de vida eterna para quem O acolhe na fé. O segredo do mistério, da sua compreensão e da sua eficácia está na fé. Dito de outro modo, Jesus é alimento, o homem come/comunga Jesus, a comunhão acontece quando e na medida em que o homem acredita. Assim, só à luz desta fé em Jesus é possível compreender a parte final do seu discurso eucarístico, onde usa a linguagem do comer e beber. Na verdade, com estes termos, próprios de uma verdadeira refeição, Jesus pretende sublinhar e explicitar as ideias precedentes. Por um lado, a imagem da refeição evidencia a dimensão da comunhão e do convívio que Jesus quer estabelecer com os homens. Por outro, a imagem do comer e beber, do mastigar e ingerir, do absorver e assimilar o alimento sublinha que Jesus é absolutamente necessário para a vida do homem e, ao mesmo tempo, que a comunhão com Jesus acontece no mais íntimo do homem, quando o homem O deixa entrar e permanecer no seu coração. Isto tudo pressupõe que o homem “coma e mastigue” as palavras de Jesus, que medite e interiorize o mistério da sua entrega, que contemple e saboreie o amor de Deus.
Se tivessem captado o mais além do milagre e seguido a lógica do discurso, os judeus teriam acreditado e, desse modo, entendido as palavras de Jesus. Como isso não aconteceu, os discípulos também se queixam, protestam, vão embora, deixam de andar com Ele. Esta debandada dos discípulos não O apanha de surpresa. Jesus sabia que, entre os seus seguidores, havia alguns que não acreditavam. Ora quem não acredita não consegue entrar na “onda” de Jesus, não é capaz de sintonizar com Ele, captar o mistério da sua vida, das suas palavras e obras.
“Também vós quereis ir embora?” Jesus, porque não quer que ninguém se sinta constrangido a ficar com Ele e a segui-l’O, interpela os apóstolos. “Sois homens livres, estai à vontade, segui a voz da vossa consciência e do vosso coração. Não fiqueis comigo por mera compaixão, para Eu não ficar sozinho e me sentir só”.
Os Doze não se escandalizaram com as palavras de Jesus nem se foram embora. E isto, porque acreditavam no Mestre: “nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus”. Quem crê em Jesus, esse escuta e entende as suas palavras. Os apóstolos já tinham dado conta que Jesus é um Mestre diferente de todos os outros, que só Ele tem palavras de vida eterna, palavras que salvam o homem. É com esta convicção que eles escutam e acolhem todas as palavras de Jesus, mesmo as mais inesperadas e misteriosas.
“Também vós quereis ir embora?” Jesus convida a todos, mas não força ninguém; mostra a todos as vantagens de O seguirem, mas a decisão pertence sempre a cada um. Mais do que muitos ou multidões, Jesus prefere discípulos que o sejam por uma opção livre – discípulos seduzidos e apaixonados, decididos e sem condições!
Pe. José Manuel Martins de Almeida

priest

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