XXIII – Domingo Comum

“Qual de vós não se senta primeiro a calcular …?”

 

            Naquele dia, como em tantos outros, eram muitos os que seguiam Jesus: “uma grande multidão”. Alguns seguiam-n’O para ouvirem as palavras cheias de ncanto que saíam da sua boca. Outros, sobretudo os doentes e seus familiares, seguiam-n’O na expectativa de obter a cura para os seus males. Quase todos, num primeiro momento, ficam impressionados e maravilhados com a sua sabedoria e as obras extraordinárias que realiza. Porém, são poucos os que realmente deixam Jesus entrar nas suas vidas. E, menos ainda, os que aceitam o desafio de deixar tudo por Ele.

            Para que ninguém se iluda e perca tempo andando com Ele, Jesus diz-lhes que quem se dispõe a segui-l’O deve amá-l’O mais que à própria vida, à família e aos bens. Optar por Cristo e aceitar ser seu discípulo não é uma tarefa fácil, não é uma decisão que se possa tomar de ânimo leve. É isso mesmo que Jesus quer realçar com a história do homem que pretende construir uma torre e do rei que vai enfrentar outro rei.

            Antes de dar início a uma obra, o homem deve pensar bem no que se propõe fazer e calcular bem os bens de que dispõe assim como os meios de que precisa para a levar até ao fim. Não basta estar animado por um sonho. É necessário ser realista, ter força de vontade e determinação, estar à altura de poder concluir a obra. Caso contrário, acabará por desistir, deitará tudo a perder e ainda será objecto de escárnio por parte dos seus concidadãos.

            Ser discípulo de Jesus é ainda mais exigente e mais difícil do que construir uma torre ou enfrentar um rei! Por isso mesmo, o homem precisa conhecer e reflectir cuidadosamente sobre a proposta/projecto de Jesus: conhecer a sua abrangência e alcance, os meios que Jesus oferece para a sua realização, os riscos, as dificuldades e vantagens que traz. Seguir Jesus até ao fim exige perseverança e a coerência de toda uma vida. Daí a necessidade de pararmos e nos sentarmos muitas vezes a pensar…

            “Qual de vós não se senta primeiro a calcular …?” Jesus quer que pensemos bem no que Ele nos propõe e pede, nas implicações e exigências de ser seus discípulos. É difícil dizer sim a Jesus, renunciar a tudo por Ele, pôr-se a caminho com Ele. E mais difícil é ainda confirmar esse sim todos os dias, prolongar essa renuncia por toda a vida, acompanhar Jesus até ao fim do caminho. É realmente difícil seguir Jesus e devemos conhecer bem o grau de dificuldade que encerra. Ao mesmo tempo, devemos considerar também as razões que Jesus nos apresenta, as graças que nos concede e a recompensa que nos promete. Depois de considerarmos bem todas estas realidades, devemos então interrogar-nos sobre o que estamos dispostos a fazer, qual o preço que estamos dispostos a pagar, ou melhor, se estamos ou não dispostos a consagrar toda a nossa vida e a tomar a cruz para seguir Jesus e servir o reino de Deus.

            “Qual de vós não se senta primeiro a calcular …?” Devemos assumir esta atitude todas as vezes que somos chamados a tomar uma decisão importante na nossa vida. Assim, os noivos devem sentar-se e pensar longamente antes do casamento: O nosso amor é suficientemente forte e sincero para podermos assumir um compromisso de vida comum para sempre? Temos um ideal e um projecto de vida capazes de animar, sem monotonia nem cansaço, o nosso amor e a nossa vida familiar? Estamos realmente preparados e conscientes das exigências, renúncias e sacrifícios inerentes ao matrimónio e à vida familiar? Queremos mesmo celebrar o sacramento com fé e na graça de Deus, ou seja, casar pela Igreja?

            Do mesmo modo, antes do baptismo dos filhos, os pais devem sentar-se e pensar bem: Acreditamos efectivamente que Jesus é o Filho de Deus e o Salvador dos homens e aceitamos o seu Evangelho como norma e orientação do nosso existir quotidiano? Sentimos que Jesus é importante, necessário e vantajoso para nós e para o nosso filho? Estamos em condições de O dar a conhecer pela nossa palavra e testemunho de vida? A nossa vida e a nossa prática cristã constituem uma garantia de que o educaremos segundo a lei de Cristo e da sua Igreja?

            “Qual de vós não se senta primeiro a calcular …?” Tu que já te decidiste por Jesus e abraçaste a vida religiosa ou sacerdotal, sentas-te com frequência a pensar e a repensar o que realmente te motivou e ainda motiva a seguir Jesus, o que deixaste e deves continuar a deixar por Ele, e o que esperas d’Ele? Será que é por Ele, pelo Evangelho e pelo reino que O segues? Será que renuncias a ti mesmo, partilhando a tua vida e os teus bens com quem serves ou serves-te do nome de Jesus para acumular riqueza e procurar benefícios humanos?

Pe. José Manuel Martins de Almeida

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