“…e a Deus o que é de Deus”

Como temos visto, Jesus não perde uma oportunidade para denunciar as infidelidades dos judeus, sobretudo dos responsáveis religiosos do povo. Estes, por seu lado, contra atacam sempre que podem, colocando-lhe questões difíceis e melindrosas com o objectivo de O apanharem nalguma contradição e assim O desacreditarem diante do povo e O acusarem perante as autoridades.
“É lícito ou não pagar tributo a César? Os judeus encontravam-se sob o domínio do imperador de Roma. Os partidários de Herodes eram favoráveis aos romanos. Os fariseus aceitavam essa situação como um castigo de Deus. Muitos outros, concretamente os zelotas, opunham-se a ela. Os fariseus e os herodianos consideraram pertinente e uma boa armadilha levar Jesus a pronunciar-se sobre o pagamento ou não dos impostos a César. Se Jesus responde afirmativamente, poderão denunciá-lo junto do povo. Se diz não, terão um bom pretexto para O acusarem aos romanos.
Astutos e fingidos quanto baste, começam por fazer um rasgado elogio a Jesus. É curioso notar que, muito embora não acreditem na verdade do que dizem, tudo o que dizem é verdade. De facto, Jesus é sincero, não faz distinção de pessoas e ensina o caminho de Deus. Porém, Jesus não se deixa impressionar com aquelas palavras. Pelo contrário, lendo-lhes o coração, descobre-lhes a malícia e não cai na cilada.
“De quem é esta imagem e esta inscrição?”. Jesus implica e compromete os seus interlocutores na resposta à pergunta que Lhe tinham formulado. Perante a realidade da moeda do tributo, eles reconhecem que a imagem e a inscrição são de César. Se são de César, então a moeda pertence a César e, consequentemente, deve ser dada a César. São, pois, eles mesmos que chegam à conclusão que devem pagar o tributo ao imperador.
Devem dar a César o que pertence a César, mas sem esquecerem de dar a Deus o que só a Deus pertence. Na verdade, o homem, como ensina a primeira página da Bíblia (Gen 1,26) é imagem de Deus. Deus deixou a sua marca na vida e no coração do homem. A imagem e a inscrição que se encontram no homem são de Deus! Seguindo a lógica da moeda, o homem pertence exclusivamente a Deus. Se o imperador tem direito ao tributo, Deus tem direito ao homem. Por outras palavras, o homem deve pagar o imposto a César, mas só a Deus deve consagrar o seu ser, a sua vida, o seu coração.
“Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Estas palavras de Jesus têm sido entendidas como o pressuposto da separação e autonomia entre o poder político e o poder religioso. Ambos têm em vista servir as mesmas pessoas que são, ao mesmo tempo, crentes e cidadãos. No entanto, movem-se em âmbitos diferentes e têm uma missão própria.
Ao longo da história do cristianismo, não faltaram os Césares que procuraram sobrepor o poder político ao poder espiritual da Igreja. Muitos chegaram a determinar a escolha de Papas e de Bispos e a condicionar o próprio agir da Igreja. Mas também não faltou a tentação no campo oposto, ou seja, da parte da Igreja. Muitos papas procuraram fazer vingar a supremacia do poder espiritual sobre os reis e imperadores. Pior ainda, muitos papas tornaram-se em autênticos Césares. Nessa condição e durante muitos séculos, eles governaram os estados Pontifícios
Ainda hoje sobrevivem resquícios desse tempo e dessa mentalidade. A Igreja ainda detém um Estado do qual o Papa é o Chefe. O papa ainda detém algo de César. Além disso, o modo como se exerce o poder na Igreja ainda é muito parecido ao dos Césares deste mundo.
Há quem defenda a existência do Estado do Vaticano, argumentando que dá mais visibilidade à Igreja, maior peso junto dos governos e a oportunidade de se fazer ouvir nos grandes púlpitos internacionais. Esses esquecem que o poder da Igreja tem a sua fonte na cruz de Cristo e não no trono de César. Além disso, mais do que essa visibilidade, é o testemunho e a coerência de vida dos cristãos e da Igreja no seu todo que fazem efectivamente crescer o Reino de Deus. O dinamismo da Igreja está em ser grão de mostarda e fermento. Assim, quanto a Igreja menos tiver de César e mais se apoiar no poder do Espírito Santo, mais liberdade terá para anunciar o Evangelho, mais credibilidade para iluminar as realidades temporais e mais eficácia na transformação da sociedade humana.

Por: Pe. José Manuel Martins de Almeida

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