XXV – Domingo Comum

“Presta contas da tua administração …”

 

            O senhor elogia o administrador desonesto, precisamente aquele que tinha andado a desperdiçar os seus bens! Como é óbvio, elogia-o não pela administração dos bens, mas pela esperteza com que encontrou uma alternativa para o seu futuro. Elogiou-o, mas não o manteve no seu lugar.

            O senhor confiou-lhe os seus bens com a missão de os gerir e fazer render. Porém, o homem malbaratou-os e usou-os em seu benefício pessoal. Perdeu por completo a cabeça com os bens alheios. Não foi fiel, o senhor não pode confiar mais nele, deve deixar a administração.

            Na eminência do despedimento, o homem procura uma solução que possa garantir a sua sobrevivência com um mínimo de dignidade. A hipótese de cavar, trabalhar no campo é imediatamente rejeitada. Não está habituado, não é um trabalho adequado às suas forças, é cair demasiado baixo na sua posição social. Mendigar ainda lhe agrada menos. É uma vergonha e grande humilhação. Quais não serão os comentários dos seus concidadãos e com que cara poderá chegar á porta e pedir esmola àqueles que antes explorou e defraudou.

            Surge-lhe então uma ideia brilhante, uma solução que lhe agrada e salva a sua face. Enquanto administrador, ele, como todos os outros, fazia-se pagar retendo parte dos juros dos empréstimos que fazia com os bens do seu senhor. Isso era legítimo. O que não era legítimo era o excesso desses juros que exigiam para si. Naquele momento e na hora de prestar contas da sua administração, o homem decide renunciar a esses lucros. Assim conquistará a simpatia dos devedores que, por sua vez, lhe retribuirão recebendo-o em sua casa. Esta é a esperteza elogiada pelo senhor. A esperteza própria dos filhos deste mundo, ou seja, daqueles que, sem se preocuparem com a verdade e com a justiça, procuram garantir os seus interesses imediatos e o seu futuro.

            “Presta contas da tua administração …” Deus constituiu o homem como administrador da terra: “dominai a terra” (Gen 1,28). O homem, com a sua inteligência e o seu trabalho, deve descobrir e gerir as potencialidades e os recursos da terra, colocando-os ao serviço do progresso e do bem estar de todos. Estes bens são suficientes e devem durar até ao termo da história humana. Por isso mesmo, cada geração deve servir-se deles pensando que eles também pertencem às gerações futuras.

            O capitalismo, em vista de um lucro sem limites e a qualquer preço, fez do homem uma máquina de produção e um animal de consumo. Isso leva à utilização e ao desperdício desmesurados dos recursos naturais, pondo em causa o próprio equilíbrio da natureza e esquecendo que o mundo e a história devem continuar para além do nosso tempo. Os responsáveis por este consumismo desumano e desenfreado, que põe em causa a sustentabilidade da terra e é gerador de tantas e tão dramáticas injustiças sociais, são administradores desonestos. Sejam eles homens do mundo das finanças, da economia ou da política, esses administradores deviam ser demitidos e responsabilizados pelos seus crimes. E nós colaboramos com eles, sendo também administradores desonestos, sempre que entramos na onda de novas necessidades desnecessárias ou desperdiçamos aquilo que é útil e necessário para outros.

            “Presta contas da tua administração …” Cada homem (cada um de nós) é chamado por Deus a prestar contas dos bens que possui. A riqueza não é necessariamente um mal, algo de diabólico. Só o é quando prendemos a ela o nosso coração e ela passa a ocupar o lugar de Deus, ou seja, quando a ganância e o apego ao dinheiro nos fazem esquecer Deus ou a relegá-l’O para segundo lugar. O vil dinheiro pode deixar de ser vil e passar a ser um bem, se adquirido com justiça e partilhado com amor e generosidade. Neste caso, ele serve para arranjar amigos que nos receberão “nas moradas eternas”. Os bens deste mundo podem-nos aproximar de Deus e do Céu, quando com eles socorremos os pobres e necessitados. Na verdade, o bem que fazemos a estes é tido como feito ao próprio Jesus (Mt 25,40). Nesse sentido, no ocaso da nossa vida, quando tivermos de prestar contas da nossa administração, eles testemunharão em nosso favor e desse testemunho dependerá sentarmo-nos à direita do Senhor no reino dos Céu.

            Já aqueles que adquirem a sua riqueza sem justiça, espezinhando os direitos dos outros, e a usufruem completamente indiferentes à sorte dos pobres, como maus administradores, serão demitidos, isto é, excluídos do “verdadeiro bem”. 

Pe. Hugo Alexandre Pichel Martins 

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