“Os discípulos não compreendiam …”

 

            Jesus insiste no anúncio da sua paixão. A seguir à confissão de Pedro, Jesus, como escutámos no domingo passado, revelou aos apóstolos que “o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser morto e ressuscitar três dias depois”. Pedro não captou o sentido das palavras de Jesus, isto é, não entendeu o alcance salvífico do seu sofrimento e da sua morte. Por isso mesmo, tenta convencer Jesus de que não é conveniente nem tem lógica que tal aconteça ao Messias. Mais, procura desviá-lo desse caminho.

             Segundo Pedro, o Messias deveria apresentar-se no meio do povo e realizar a sua missão, através de obras extraordinárias, como um senhor poderoso. O Messias deveria sobrepor-se e impor-se a todos e nunca deixar-se derrotar e esmagar pelos homens. Pedro olha para Jesus e entende a sua missão segundo os critérios do mundo e a lógica humana. Ainda não está à altura de compreender as coisas de Deus, os desígnios da sua vontade, a lógica do seu amor.

            Jesus sente, por conseguinte, necessidade de voltar sobre o mesmo tema. Desta vez, enquanto caminha pela Galileia, Jesus diz-lhes: “O Filho do homem vai ser entregue às mãos dos homens e eles vão matá-lo; mas Ele, três dias depois de morto, ressuscitará”.

            Os apóstolos continuam sem compreender a mensagem de Jesus. E, em vez de pedirem a Jesus que lhes explique as suas palavras, entretêm-se a discutir entre eles sobre qual é o mais importante, qual ocupará o melhor lugar no reino de Deus. Ao procederem deste modo, manifestam que não estão a entender mesmo nada da vida e da missão de Jesus. Os apóstolos ainda imaginam o reino dos céus à maneira dos reinos deste mundo e seguem Jesus na expectativa de conseguirem vantagens humanas como riqueza e poder, fama e glória.

            Jesus, porque não quer que os apóstolos andem iludidos, revela-lhes que, segundo os critérios de Deus, o mais importante é aquele que ama e serve mais, ou seja, aquele que está disposto a investir os seus talentos e a gastar a sua vida ao serviço dos outros. Jesus, plenamente consciente das limitações e dificuldades de aprendizagem dos discípulos bem como da necessidade absoluta que eles entendam bem o seu mistério pascal, voltará a falar-lhes sobre esta realidade (cf Mc 10,32-34).

            Eles não podem conhecer Jesus com verdade nem, consequentemente, podem continuar a sua missão com fidelidade, se não entendem e aceitam que o sofrimento e a morte são o caminho que Ele deve percorrer para salvar os homens, ou seja, o caminho que conduz à ressurreição e à vida eterna.

             “Os discípulos não compreendiam …” E, por medo ou simples conveniência, não interrogavam Jesus. Parecia-lhes mais cómodo desviar a conversa e banir tais pensamentos e preocupações. De facto, não é fácil entender que Jesus, o Messias e Filho de Deus, tenha de experimentar o drama do sofrimento e o fracasso da morte. Também não é fácil aceitar o desafio de continuar a sua missão, quando isso implica seguir pelo mesmo caminho da cruz.

            A paixão de Jesus só é compreensível e aceitável à luz do amor sem limites de Deus pelos homens. Jesus aceita a morte, porque, através dela, quer dar à humanidade a maior prova do amor de Deus. Só quem ama está disposto a sofrer e a dar-se totalmente por alguém. Um sofrer que não vale por si mesmo. Vale enquanto é gerador de vida e esperança.

            Jesus não falou apenas da sua paixão. Ele predisse também a sua ressurreição, ao terceiro dia. O seu sofrer por amor e a morte, que é vencida pela ressurreição, oferecem-nos uma justa perspectiva do sofrimento e uma outra capacidade para entender o de Jesus e para aceitar o nosso. E quando vemos a lógica e a beleza deste caminho, então não nos preocupamos com conseguir vantagens humanas em nome de Jesus e a pretexto da missão que recebemos d’Ele. Pelo contrário, somos capazes de consagrar a nossa vida, estando mesmo dispostas a perdê-la, para que Ele seja conhecido e amado pelos homens e os homens possam alcançar o bem supremo da ressurreição e da vida eterna.

            Insistimos: ninguém chega ao conhecimento de Jesus sem entender o mistério da sua paixão. E ninguém consegue lidar com a realidade do sofrimento humano sem a luz da fé em Cristo. 

Pe. José Manuel Martins de Almeida

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