“Chamai-o”

 

            Um cego está sentado à beira da estrada a pedir esmola. Algumas pessoas passam e fingem que não o vêem. Comportam-se com se fossem mais cegas do que ele. Outras, como se fossem surdas, fingem que não o ouvem e seguem o seu caminho. Outras ainda, para não terem de o ouvir repetidas vezes, lá deixam cair uma pequena esmola. Todos passam e seguem o seu caminho. E Bartimeu lá continua à beira da estrada e à margem da vida. Mesmo que tenha recebido algumas esmolas, no dia seguinte voltará para a beira da estrada e sentir-se-á obrigado a viver como um excluído.

            À beira da estrada, o cego pede a todos os que passam. Não perde a oportunidade de pedir também a Jesus que passa por aquele caminho. Sabendo quem era, Bartimeu pede-Lhe não uma esmola qualquer, mas aquilo que mais precisa: “que eu veja”. O cego tem consciência de que, só na medida em que voltar a ver, poderá deixar a berma da estrada e regressar à vida normal, providenciando o seu próprio sustento. Daí a sua insistência em fazer chegar o seu grito até ao coração de Jesus. Vence a resistência de quem o quer manter longe – aqueles que pensam que ele se deve resignar à condição de viver toda a sua vida à beira da estrada, como uma fatalidade, um destino que não pode ser alterado.

            Porém, a súplica insistente daquele cego encontra eco no coração sensível de Jesus. Jesus pressente a dor do homem que Lhe grita da berma do caminho – o grito de quem se sente à margem da vida e da sociedade. Jesus pressente que Bartimeu está mais perto dele e O conhece melhor do que todos aqueles que O seguem pela estrada.

            “Chamai-o”. Jesus manda-o chamar, precisamente àqueles que o queriam fazer calar e manter afastado. Deste modo, Jesus ensina-lhes que ninguém deve impedir ninguém de se aproximar d’Ele. A todos os homens deve ser dada a possibilidade de se encontrarem com Jesus e de O seguirem.

            “Chamai-o…” “Vos que quereis que ele se cale e permaneça longe de mim, ficai a saber que Eu o quero perto de mim e quero encontrar-me com ele”. Procedendo deste modo, Jesus diz-nos que não quer que aquele homem continue por mais tempo à beira da estrada, marginalizado e excluído da vida social. Pelo contrário, quer que possa viver como e com os outros, pois todos os homens têm direito a viver com dignidade!

            “Chamai-o”. Interpelado pelo grito insistente do homem, Jesus parou. Mas não voltou a trás nem se aproximou da beira do caminho. Jesus quer que aquele homem faça a sua parte, que seja ele a abandonar o lugar em que se encontra e a retomar o caminho, que não se acomode à situação em que vive, que não espere que os outros façam tudo por ele. Jesus parou, mas deve ser ele a percorrer o caminho que os separa, para que o encontro aconteça.

            Através deste encontro, Jesus diz-nos que Ele não exclui ninguém e dá a todos os homens a oportunidade de se aproximarem d’Ele; que a sociedade não deve excluir nem privar ninguém dos seus direitos; que os seus discípulos têm a missão de aproximar e não afastar as pessoas de Deus e da salvação.

            “Muitos repreendiam-no para que se calasse”. Eram muitos os que caminhavam com Jesus mas não sabiam quem Ele era nem acreditavam n’Ele. Andavam com Ele, talvez porque falava bem e fazia obras extraordinárias. Porém, ainda não tinham captado o poder das suas palavras e o alcance dos seus milagres, ou seja, o que havia de verdadeiramente especial e único em Jesus. Assim se explica a sua reacção em relação ao cego. Não vendo, não acreditando, desconhecendo o verdadeiro poder de Jesus, não compreendem a atitude do cego, o seu atrevimento e a sua teimosia, o seu desejo de se fazer ouvir e de se encontrar com Jesus. Porque não entendem e não vêem em Jesus o que o cego já consegue ver n’Ele, repreendem-no, exigem que Ele se cale, que se resigne à sua condição de cego. Andavam com Jesus, eram seus ouvintes e testemunhas, mas não O acolheram. Jesus continuou a ser um desconhecido. Não tendo acreditado, permaneceram cegos.

            “Seguiu Jesus pelo caminho”. O cego não se limitou a receber o benefício da vista. Decidiu seguir Jesus. Abandona definitivamente a beira do caminho e segue o caminho de Jesus, ou melhor, faz de Jesus o Caminho da sua vida. N’Ele, em quem acreditou, encontrou a salvação: “a tua fé te salvou”.

Pe. José Manuel Martins de Almeida

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