XXXIII – Domingo Comum

“Assim tereis ocasião de dar testemunho”

 

            O templo de Jerusalém era o lugar privilegiado da presença de Deus no meio do seu povo. Nele, todos os dias, os sacerdotes ofereciam, em nome do povo, os sacrifícios prescritos pela lei. Era aí também que os judeus celebravam as três grandes festas anuais: Páscoa, Pentecostes e Tabernáculos. O templo congregava e garantia a unidade do povo.

            Recentemente tinha sido restaurado e embelezado, adquirindo um novo e impressionante esplendor. Os judeus olhavam para o templo com admiração e orgulho. No entanto, apesar da sua grandeza e riqueza e contra tudo o que os judeus podiam esperar, Jesus anuncia que será destruído. Quando os romanos, no ano 70 dc, conquistaram a cidade santa e destruíram o templo, os judeus olharam e sentiram esses acontecimentos como o fim de tudo, o fim do próprio mundo.

            Os apóstolos não se devem preocupar com esse fim, nem do templo nem, muito menos, do mundo. Não devem dar crédito àqueles que anunciam para breve esse tempo. Também não se devem impressionar nem deixar abater pelas guerras, terramotos e epidemias que vão acontecer e porão termo à vida de muitas pessoas. Os apóstolos devem, isso sim, concentrar-se na missão que têm a realizar. O tempo futuro é essencialmente o tempo da missão, o tempo do anúncio do Reino de Deus. Por conseguinte, não se devem preocupar com o fim do mundo mas com a construção do Reino de Deus no mundo.

            Como em muitas outras ocasiões, Jesus adverte os apóstolos dos inúmeros perigos que vão encontrar. Por causa do seu nome, ou seja, por anunciarem com fidelidade o seu Evangelho, serão entregues às sinagogas e às prisões, e conduzidos à presença de reis e governadores. Mais, até os próprios pais e amigos poderão estar entre os seus opositores. Os apóstolos têm de contar com tudo isso e aproveitar essas situações difíceis para dar testemunho. No meio das perseguições e adversidades, quando sofrem por causa de Cristo, perseverando na missão, os apóstolos mostram a autenticidade da sua fé e como Jesus é realmente importante para eles. Esse testemunho constitui o anúncio mais credível e convincente do Evangelho, aquele que mexe mais com as pessoas e as pode mover à conversão e à fé.

            Em todos os tempos sucedem-se guerras, tremores de terra e calamidades. Em todos os tempos aparecem “falsos profetas” a anunciar o fim do mundo, indicando mesmo o dia. Em todos os tempos, apesar dos falhanços sucessivos, há sempre pessoas que acreditam neles. Ninguém sabe quando chegará o termo da história humana. Mas, a partir da palavra de Deus, podemos afirmar que não está para breve.

            Na verdade, Deus, por mais que o homem tente em sentido contrário, não desiste do projecto que sonhou para a humanidade. No início, Deus confiou ao homem a missão de encher e dominar a terra (Gen 1,28). Apesar de todos os progressos conseguidos, o homem ainda está muito longe de descobrir e colocar ao serviço do desenvolvimento dos povos todas as potencialidades da terra e do universo. Há ainda um longo caminho a percorrer. O mundo e a história vão seguir, seguramente, o seu curso por muito tempo.

            Além disso, antes que tudo chegue ao seu termo, é necessário que o Evangelho seja anunciado a todas as criaturas, em todos os povos. Também esta missão, que Jesus confiou à Igreja, está muito longe de chegar ao fim. Quanto tempo não será ainda necessário para que o Evangelho possa ecoar como uma Boa Nova de salvação em todos os lugares da terra!

            Por tudo isto, não nos devemos inquietar com o fim do mundo, Pelo contrário, devemos preocupar-nos e investir as nossas energias e os dons recebidos de Deus no cumprimento da nossa missão, dando testemunho. Também hoje não é fácil dar testemunho. Não é fácil para nós, os que vivemos no chamado mundo ocidental, onde prevalece o indiferentismo religioso e uma oposição crescente aos valores e ideais cristãos. Sofrem ainda mais os cristãos que, em tantas partes do mundo, sobretudo no Médio Oriente, são perseguidos, mortos ou expulsos das suas próprias terras, pelo simples facto de serem cristãos. Tanto nós como eles temos pois a oportunidade da dar testemunho, de mostrar aos homens que Jesus vale tanto para nós que vale a pena sofrer e dar a vida por Ele. O testemunho dos cristãos, sobretudo no mundo da indiferença e do ódio, será a única pregação possível, a única que acabará por atrair os homens.

Pe. José Manuel Martins de Almeida

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