Este terceiro domingo, o prรณximo e o que vem a seguir marcam o centro da nossa Quaresma. Principalmente ao longo destas trรชs semanas, a Igreja convida-nos a centrar a nossa atenรงรฃo no Mistรฉrio pascal de Cristo e, partindo daรญ, a fazermos uma sรฉria revisรฃo da nossa vida para, com verdade, podermos renovar as promessas baptismais na Noite Pascal.
Estamos no ano da Fรฉ e a Palavra que hoje escutamos remete-nos para a experiรชncia de Deus que estรก no coraรงรฃo da nossa Fรฉ. ร essa a experiรชncia de Deus na pessoa de Moisรฉs que o livro do รxodo nos apresenta. Tudo comeรงa na surpresa do fenรณmeno estranho de uma sarรงa que ardia sem se consumir. Movido pela curiosidade, Moisรฉs tenta aproximar-se. Mas uma voz tambรฉm estranha avisa-o de que nรฃo pode aproximar-se de qualquer maneira, mas sรณ devidamente preparado para o encontro com Deus, portanto sem sandรกlias nos pรฉs. Vem depois o diรกlogo, que comeรงa por uma revelaรงรฃo e continua no apontar de uma missรฃo. Deus revela-se como sendo o Deus dos Pais Abraรฃo, Isaac e Jacob, o que impรตe a Moisรฉs uma atitude de respeito e humildade, manifestada no cobrir do seu rosto. A partir da revelaรงรฃo, o prรณprio Deus aponta a missรฃo que se segue, a saber, libertar o Povo que gemia oprimido pelo Faraรณ do Egipto. Moisรฉs aceita essa missรฃo, mas pรตe uma primeira dificuldade, que Deus resolve, com a revelaรงรฃo do seu nome prรณprio โ โEu sou aquele que souโ ou seja, Javรฉ.
Temos diante de nรณs a histรณria de uma vocaรงรฃo, a vocaรงรฃo de Moisรฉs. Com a sua histรณria pessoal, feita de altos e baixos, grandezas e debilidades, Moisรฉs vรช-se de repente diante do Senhor e confrontado com uma missรฃo difรญcil, qual era a de liderar o Povo para a saรญdo do Egipto em direcรงรฃo ร terra prometida. A experiรชncia feliz do encontro com Deus motiva-o e ele aceita. Por sua vez, a revelaรงรฃo do nome de Deus, para alรฉm de ser uma seguranรงa que Moisรฉs pediu a fim de se credenciar diante do Povo, tambรฉm exprime a proximidade e a intimidade que o prรณprio Deus quer manter com o seu enviado.
Estamos no ano da Fรฉ e queremos aproveitar esta soberana oportunidade principalmente para ir ao essencial, reforรงando a experiรชncia de Deus, no encontro com a Pessoa de Cristo, ressuscitado e vivo no meio de nรณs. Ele que รฉ essa fonte de รกgua viva a que se refere S. Paulo hoje, na I carta aos Corรญntios. De facto, tal como o Povo de Deus, na sua caminhada atravรฉs do deserto, precisou de matar a sede com a รกgua que Deus lhe ofereceu, a partir do rochedo ferido com a vara de Moisรฉs, tambรฉm nรณs precisamos de encontrar em Cristo a fonte de รกgua viva que mata a sede de uma vez para sempre. Essa fonte de รกgua viva, que identificamos com o lado de Cristo aberto, no alto da Cruz, chega atรฉ nรณs principalmente atravรฉs dos sacramentos. Aqueles que, no Povo de Deus do Antigo Testamento, nรฃo tiveram coragem de afastar o pecado de suas vidas sofreram o castigo da morte que os impediu de entrar na terra prometida. Nรณs hoje queremos aprender a liรงรฃo e percorrer o caminho em sentido oposto, voltando-nos, de verdade, para a pessoa de Cristo, atravรฉs de uma autรชntica conversรฃo, o que implica deixar os caminhos do pecado e aderir ao caminho que nos conduz para Cristo e para vida eterna.
Reconhecer os nossos pecados, confessรก-los e receber o Seu perdรฃo รฉ o que o mesmo Jesus Cristo nos pede concretamente nesta quaresma e oferece-nos, para isso, um instrumento de excelรชncia, que รฉ o Sacramento da Penitรชncia ou Confissรฃo. No nosso processo de conversรฃo incluรญmos tambรฉm a avaliaรงรฃo dos resultados que estรก a ter a nossa vivรชncia da Fรฉ. De avaliaรงรฃo nos fala Jesus Cristo hoje no Evangelho. ร figueira que nรฃo dava fruto Ele concede mais uma ano de oportunidade. A cada um de nรณs nรฃo sabemos quanto tempo ainda nos vai dar para produzirmos os esperados frutos da justiรงa e da caridade em que deve desabrochar a nossa Fรฉ. Todavia nรฃo podemos distrair-nos, mas temos de estar vigilantes, nรฃo se venha a passar connosco o que aconteceu com os da torre de Siloรฉ ou os que morreram ร s mรฃos de Pilatos.
Este รฉ o tempo favorรกvel que o Senhor nos oferece para nos convertermos a Ele de todo o coraรงรฃo. E Ele quer de nรณs uma conversรฃo que seja regresso ร verdadeira experiรชncia de Deus; em que aprofundemos a identificaรงรฃo com Ele, dentro do processo iniciado no dia do nosso Baptismo e avaliemos os frutos de caridade que estรฃo ou nรฃo a acontecer na nossa vida marcada pela Fรฉ.
Estes trรชs domingos centrais da Quaresma sรฃo oportunidade รบnica que queremos aproveitar para o nosso verdadeiro regresso a Deus.
ย 3.3.2013
+Manuel R. Felรญcio, Bispo da Guarda