1) Celebramos o IV Domingo da Quaresma marcado pela nota da alegria porque se aproxima a solenidade das festas pascais. É por isso mesmo chamado o domingo da alegria, porque de alguma forma antecipa as alegrias da ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo que celebramos na Vigília Pascal e no Domingo de Páscoa. É um domingo que faz parte do conjunto das 3 semanas que constituem o coração da Quaresma e portanto são o tempo favorável por excelência para revermos a nossa vida pessoal e comunitária à luz da mensagem evangélica. Está em causa recuperarmos a alegria e a esperança que marcam, por si mesmas, a nossa condição de baptizados. Preparamo-nos, assim, também para renovar as promessas do nosso Baptismo na noite pascal. E nunca é demais lembrar que a única fonte de renovação, de revitalização que nós temos é a Pessoa de Jesus Cristo. Jesus é a Palavra Viva e a luz que ilumina os nossos caminhos. É de luz e capacidade de ver bem e em profundidade que nos fala hoje a Palavra de Deus proclamada.

2) Assim o Evangelho apresenta-nos a Pessoa de Jesus a dar capacidade de ver a quem nunca a teve – aquele cego de nascença. Para ver bem é preciso que haja luz mas também é necessário que a pessoa tenha capacidade de ver. No quadro bíblico de hoje Jesus interveio para conjugar estas duas condições – a luz do sol e a capacidade de ver. Porém, esta experiência imediata é completada pelo ensinamento que Jesus vai acrescentando, em que aponta para uma outra cegueira e uma outra falta de luz que se concretizam em obras e atitudes contrárias ao bem das pessoas e à vontade do criador.

Este cego de nascença passou por algumas dificuldades para garantir o seu estatuto social de pessoa normal com capacidade de ver como ou outros. Superou as dificuldades, mas foi quando descobriu a verdadeira identidade de Jesus, Filho do Homem e Salvador, que ele se colocou decididamente do lado dos que eram cegos e passaram a ver, a ver a realidade de vida e do mundo na sua verdade e profundidade, com ajuda da nova luz que é Jesus Cristo. São os verdadeiros frutos da Luz enumerados por S. Paulo, na carta aos Efésios, que também queremos cultivar – a bondade, a justiça, a verdade. Mas também queremos recusar as obras das trevas, porque queremos ser filhos da luz por força da nossa condição de discípulos de Cristo.

Esta condição dá-nos, de facto uma luz nova, essa luz que nos torna capazes de olhar o mundo e as pessoas como quem vê para além das aparências e fica capaz de ler a profundidade dos corações, discernindo neles o dedo de Deus e os seus apelos como o fez o profeta Samuel na escolha de David. Pelas aparências ele era, de facto, o menos recomendado para o desempenho da missão de Rei do Povo Eleito.

3) É essa luz nova, que, nesta Quaresma e, em particular no tempo imediatamente preparatório de Páscoa, nós queremos acolher. É a nova capacidade de ver para além das aparências que também, na comunhão com a pessoa de Jesus Cristo, luz que a todos nos ilumina, queremos cultivar. Sentimos que precisamos de pessoas cada vez mais consciente se verdadeiramente esclarecidas para intervirem activamente na definição dos caminhos que devem ser percorridos quer pela Igreja quer pela sociedade. Sabemos que Deus é o único condutor ao mesmo tempo da Igreja e da sociedade. Mas também sabemos da sua decisão de fazer das pessoas seus parceiros no exercício desta condução.

3.1) Olhando para a vida da Igreja, sob o efeito da Luz verdadeira que é o mesmo Senhor Jesus Cristo, temos obrigação de participar com o máximo empenho na definição dos caminhos que ele deve percorrer hoje para cumprir a dupla fidelidade a Jesus Cristo e seu Evangelho, por um lado, às novas circunstâncias da hora actual, por outro. Sentimos que a fidelidade a Jesus Cristo nos pede mais determinação para constituirmos uma Igreja pobre, humilde, sempre à procura de formas de serviço à sociedade cada vez mais purificadas.

Queremos recusar sempre a tentação do poder que não é serviço, a tentação de colocarmos as nossas esperanças em realidades efémeras e passageiras ou então querermos só resultados palpáveis e imediatos na nossa acção pastoral. Temos de lembrar constantemente a nós próprios, enquanto discípulos de Cristo, que só a relação viva e forte com Ele nos serve e todos os dias temos de reexaminar as nossas opções e comportamentos à luz da sua pessoa e das opções que Ele também fez. Sentimos ser Sua vontade que façamos progressos no modelo de Igreja que se entende a si mesma como uma comunhão de pessoas baseada na comunhão que existe no seio da Santíssima Trindade. E sentimos que ao serviço desta comunhão precisamos de criar e alimentar uma autêntica rede de serviços, a que chamamos comunhão de Ministério. Nesta rede ou comunhão de ministérios todos são importantes e nenhum é mais importante do que os outros, na condição de cada um ocupar o devido lugar no exercício das suas competências. Isto quer dizer que o Bispo não deva substituir padres; estes não devem substituir os diáconos ou outros ministérios, mas todos temos de saber encontrar sob a condução do Espírito Santo e de Jesus Cristo, o único Bom Pastor, os caminhos de cooperação, complementaridade e comunhão que a Igreja precisa de percorrer para ser Sacramento do Reino de Deus no serviço à comunidade humana.

3.2) Cumpre-nos também como Igreja e como cristãos exercer a nossa responsabilidade esclarecida, participando na organização da sociedade. Precisamos de uma sociedade nova – porque aquela que temos está gasta e os seus modelos de organização provaram sobejamente que não servem os verdadeiros interesses das pessoas. Precisamos de uma sociedade nova que se saiba organizar principalmente de dentro para fora e de baixo para cima, mais do que de cima para baixo. Para isso é necessário saber promover o máximo exercício de responsabilidade por parte de todos os cidadãos. Sempre as sociedades progrediram através das iniciativas e do trabalho dos seus membros. Hoje o trabalho assume formas organizativas complexas e completadas por meios técnicos, mas não pode ser substituído ou eliminado. O trabalho humano não é só um meio de produção, nem como tal deve ser principalmente avaliado. Precisamos de condições para que as pessoas se entusiasmem nos seus processos de trabalho e sintam cada vez mais  que, pelo trabalho, aumentam  a produção material, mas também e principalmente dão expressão à sua criatividade, realizando-se como pessoas.

Todos sabemos que numa sociedade há os que, de facto, trabalham para obter resultados económicos e fazer crescer a riqueza do seu país. Mas há também os que não trabalham porque já trabalharam e os que ainda não trabalham porque se preparam para trabalhar amanhã e ainda aqueles que não trabalham por falta de saúde ou outras condições. Daqui resulta que a responsabilidade de quem trabalha é grande e ninguém pode fugir a esta responsabilidade. É grande a responsabilidade de quem trabalha, mesmo considerando apenas a produção material, porque dela depende a sua sustentação e da sua família, mas também a de todos os outros que ficam fora do trabalho pelas razões apontadas. Acrescente-se ainda o sustento da máquina administrativa do Estado, que tem de servir para garantir a justiça na equitativa distribuição dos recursos.

Sabemos que tem a sua complexidade fazer a correcta gestão deste conjunto de factores, além de outros, que geram a saúde de uma comunidade. Mas temos de ter a coragem de gerir com a máxima justiça este quadro de relações e inter-acções. Temos sobretudo que pedir a cada um dos intervenientes neste quadro uma consciência bem esclarecida das suas responsabilidade e sobretudo tem de haver formas de impedir que qualquer deles se aproprie indevidamente de recursos que lhe não pertencem ou se recuse sem razão a dar o seu contributo, pelo trabalho e pela forma como intervém nas decisões, para a autêntica promoção do bem comum.

Quando a sociedade portuguesa está em período de reorganização e a ser pressionada por forças externas ao país para que dê provas de capacidade para se auto governar, é preciso que todos nós, como cidadãos esclarecidos e responsáveis, saibamos ocupar o nosso lugar.

Para isso precisamos de informações muito claras quer sobre a situação actual da nossa administração pública quer sobre os processos que motivam as pessoas para a iniciativa e o trabalho quer também sobre aqueles que distribuem os seus resultados.

Claro que para uma boa organização da sociedade não basta garantir os bons resultados  da produção material e até a sua justa distribuição. Há valores mais altos do que estes sem os quais as pessoas não podem ter vida de qualidade. E aqui incluímos sobretudo os bens da proximidade e da boa relação entre as pessoas que temos de melhorar. Estas não podem ser tratadas como números, mas acolhidas sempre como pessoas em comunidades nas quais ajudam e são ajudadas a realizar a sua vocação para a comunhão. E precisamos de não descurar estas metas que as contas públicas não contabilizam mas são, de facto, a parte mais importante da nossa vida em sociedade.

4) É diante da Palavra de Deus que queremos, como discípulos de Cristo, aprofundar o nosso sentido de responsabilidade quer para actuarmos na vida Interna da Igreja quer para intervirmos o mais activamente possível na vida da Sociedade.

Palavra de Deus que queremos ler e compreender, quanto possível em grupo, para sabermos o que ela pretendeu dizer aos que a escutaram no primeiro momento em que foi pronunciada.

Palavra de Deus que queremos meditar para ver o que ela diz a cada um de nós hoje e aos grupos em que nos inserimos.

Palavra de Deus que queremos rezar, para, no diálogo com Deus, aperfeiçoarmos a nossa capacidade de resposta aos apelos que ela nos faz, Palavra de Deus que de facto é luz que ilumina os nossos caminhos e os caminhos do mundo, e, por isso, na contemplação pessoal e de grupo, queremos aprender a discernir os melhores caminhos diante da Pessoa de Jesus, a Luz verdadeira. Ele é, de facto, fonte de vida e vida em plenitude, assunto que trataremos no próximo domingo.

+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda

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