Deus, quando conhecido com verdade, encanta e maravilha, atrai e seduz o homem. Mas acreditar em Deus e amá-lo, fazendo a sua vontade, comporta grandes renúncias e sacrifícios.
O profeta Jeremias partilha connosco a sua singular experiência. Ele, por um lado e de um modo particularmente intenso, sentiu a sedução de Deus: o Deus que se lhe revela, que se interessa por ele e confia nele ao ponto de o enviar, em seu nome, ao povo de Israel. Agindo assim, Deus conquista o coração do profeta.
Porém, por outro lado, Jeremias experimenta, quase até ao limite das suas forças, as dificuldades inerentes à missão. Considerando Deus responsável por tudo o que lhe está a acontecer, é a Deus que se queixa e é com Ele que desabafa: “sou objecto de escárnio …, toda a gente se ri de mim …, a palavra do Senhor tornou-se para mim ocasião permanente de insultos e zombarias”.
Na verdade, a palavra de Deus – uma palavra que denuncia o mal e exige a conversão – incomoda o povo. Como reacção, as pessoas, que não estão dispostas a reconhecer os seus pecados e a mudar de vida, maltratam o profeta e condenam ao fracasso a sua missão.
Jeremias, profundamente desiludido, chega a considerar que errou, ao deixa-se seduzir por Deus, e pensa desistir: “Não voltarei a falar nele, não falarei mais em seu nome”. Não vale a pena, pensa ele, não compensa agir em nome de um Deus que não protege os seus enviados e não lhes garante sucesso.
De facto, Deus não garante (nem pode garantir) o sucesso àqueles que trabalham em seu nome, porque Ele respeita sempre a liberdade dos homens. Deus quer o bem dos homens e tudo faz para lhes mostrar o seu amor e os salvar. No entanto, Deus jamais se impõe à força, jamais obriga alguém a aceitar os seus dons.
Mais do que rejeitar o profeta, o povo está a rejeitar o próprio Deus. É a Deus que o povo não quer aceitar, são as suas palavras que ele não quer ouvir. O que realmente os fere e os desagrada é a verdade e a razão do que Deus, através do profeta, lhes diz, é a proposta de vida nova, na fidelidade à aliança, que Deus lhes faz.
No meio daquela tensão, dramática e angustiante, prevalece a sedução de Deus: “havia no meu coração um fogo ardente … Procurava contê-lo, mas não podia”. Jeremias quer abandonar Deus, porque se sente abandonado por Ele, mas, ao mesmo tempo, sente forte em si a presença e o amor de Deus. O fogo que sentia no seu coração só podia ser o fogo do amor de Deus. E se Deus continua com ele, se Deus não desiste dele, também ele não pode desistir de Deus.
A rejeição, a perseguição e o sofrimento são realidades indissociáveis da missão. Isso mesmo se confirma na vida e na missão de Jesus e dos seus discípulos. Jesus tem plena consciência disso e quer que os discípulos também estejam bem esclarecidos a esse respeito. Por um lado, anuncia-lhes, por diversas vezes, que Ele tem de sofrer muito, ser morto e ressuscitar. Por outro, diz-lhes claramente que quem O quiser seguir deve estar disposto a renunciar a si mesmo, a tomar a cruz, a perder a sua vida.
Não é fácil entender e aceitar seguir o caminho da paixão. A reacção de Pedro comprova-o de um modo inequívoco. Parecia-lhe mais lógico que Jesus, sendo Filho de Deus, não experimentasse as fraquezas e os fracassos humanos. Antes, se mostrasse como um Messias glorioso e triunfador. E segundo essa lógica, ser discípulo de Jesus deveria garantir sucesso. Porém, não é assim que acontece na vida de Jesus nem é isso que Ele promete aos seus discípulos.
Renunciar a si mesmo, tomar a cruz, perder a vida implica consagrar a vida, investir os talentos, gastar as energias, assumir e realizar a sua missão como um serviço dedicado aos outros; implica também renunciar às suas ambições pessoais de poder, fama e riqueza, dando o primeiro lugar ao Reino de Deus; implica ainda, sofrer por causa de Cristo, isto é, ser incompreendido, caluniado e maltratado por causa da sua fidelidade ao Evangelho, quer porque o vive quer porque o anuncia aos homens.
Só quem se sente seduzido e conquistado por Cristo, tal como Jeremias esteve em relação a Deus, é capaz de seguir por este caminho e ser perseverante até ao fim. Esse sabe e acredita que a vida de Deus vale mais do que todos os bens e todas as riquezas deste mundo.

Por: José Manuel Martins Almeida – Padre

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